O padre, para que não anoitecesse entretanto, tão asinha quanto entrou também rezou a missa de encomenda das almas. Saído do altar o padre encabeçou o cortejo do funeral, logo seguido de João. O curto percurso foi muito chorado por todos, menos por ele. Caía a penumbra quando a última pazada de terra caiu. Os coveiros bateram cuidadosamente a terra, dando forma às sepulturas, e deram o trabalho por terminado
Foi invadido naquele momento por uma tristeza misturada com a alegria de saber o que uma luz lhe dizia.
A vida, pensou, é uma só desde o princípio dos tempos, é uma linha intermitente que se interrompe e é retomada, sem interrupção nem retoma, porque o tempo é tão só o eterno presente. A morte não é nada de definitivo, porque no presente tudo acontece, tanto a morte quanto a vida, tanto a saída como também o regresso. E não é preciso procurar a perfeição nem a verdade porque as somos e temos mas presumimos que não.
Colocou-se fora do portão de ferro do cemitério para que todos o cumprimentassem à saída, após o que fez sinal ao padrinho para abalarem dali.
Sempre calado, já iam longe quando João pediu ao padrinho que regressasse à aldeia e que o deixasse em casa dos falecidos pais. Ao fim e ao cabo aquela casa era agora sua e sentiu necessidade de ficar por ali uns dias.
Deram meia volta e, só passados longos minutos, ele regressou ao assunto dos pais.
- Até que ponto o padrinho conhecia os meus pais?–perguntou.
amizade com o teu pai. Ele, por lá, sempre me falou da tua mãe
como a sua princesa. A tua mãe não a conhecia tão bem,
mas das poucas vezes que privei com ela sempre a vi
apaixonada pelo teu pai. Conheciam-se desde crianças, como
sabes…
Chegados à porta da casa dos compadres o padrinho mandou parar a diligência e ele saiu.
- Manda-me dizer quanto quiseres regressar. Mandarei cá
alguém…
- Darei notícias – respondeu ao padrinho.
João entendeu passar ali a noite, junto às memórias dos seus progenitores. Resistiu à insónia até que, perto da meia-noite, saltou da cama. Aquela noite de lua cheia chamava por si. Saiu porta fora a caminho de uma ceara de trigo maduro. Porquê? Perguntava ele a si próprio. Porque nunca sentiste as espigas à lua, respondia ele a ele mesmo. E estava nisto quando uma secreta esperança lhe cochichou ao ouvido que aquela seria uma noite muito singular.
Ó Jerusalém !
há uma luz que te guia para lá das luzes
e uma só palavra te diz como deves ser dita:
Eternidade
___
Foto: Jerusalém/Monte do Templo/ Domo da Rocha (mesquita) vistas do Monte das Oliveiras (do interior da Igreja Dominus Flevit -O Senhor Chorou) - Foto LNMarques - 09/08/09
sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia
confesso que não vi cada um dos grãos de areia
nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro
sentei-me ali
estava como sempre estou em todas as praias
mais no sal que na terra
mais na água que no sol
quando olhei para longe e vi na linha
da fronteira celeste do mar
como se estivessem perto de mim
todos os rios do mundo
Pois que o Homem tem este entendimento
e se vê partido desde sempre, assim entre dois mundos,
que sejam suas as artes visíveis que atura e levanta.
E também as outras que afluem desde a noite dos tempos:
Quando ele era tão só ele mesmo sem vaidade nem corpo aqui.
Tão só a paz quieta que via ao fundo quando abalava
e depois guardava chamando sua, no Coração…
O padre falou durante mais de uma hora. O sino da igreja bateu as meias e as horas completas e ele nem deu por isso. Só quando viu João tirar o relógio do bolso se apercebeu da dimensão do discurso. Foi então que se calou e, depois de uma breve pausa, enquanto coçava a cabeça e ajeitava os poucos cabelos, acrescentou:
- Lembro-me bem do dia em que te baptizei. Na altura senti que a água, que em nome do Espírito Santo te entornei pela cabeça, não te lavou a alma. Nem tampouco o sal que te pus na boca expulsou para o deserto qualquer demónio que por conta do pecado original dos homens estivesse escondido dentro de ti. Foi em nome e em sinal da sabedoria que te dei o sal, e ele nada acrescentou.
João, impaciente, olhou o padre nos olhos. Leu as angústias de quem não tem muito mais tempo e, o padre, percebendo que ele tomava fôlego para falar antecipou-se:
-Sempre foste puro, ao ponto da Igreja nada te poder dar. Sempre te afastaste. Porquê?
- Eu sei o que o atormenta – respondeu João. Não vale a pena toda essa conversa redonda em que tudo tem a ver com tudo e também com nada. O padre sabe que a Igreja de Jesus Cristo, que no início foi dos pobres, tomou depois o caminho dos ricos. Em nome do poder a pureza deixou de conduzi-la. A promessa do paraíso passou a ser perigosa e deu lugar à pregação da paciência humana: sede pacientes que será vosso o paraíso. No princípio havia um espelho e o que era em cima era como em baixo, e o que era em baixo era como em cima. Aqui se queria construir algo mais próximo do entendimento divino das coisas. Posteriormente, para a Igreja, tudo perdeu essa actualidade e só depois da morte o paraíso poderia ser de todos. Mas, se assim é, não percebo porquê o medo de morrer. Ou será que as suas certezas vacilam? – rematou, sabendo de antemão a resposta.
O padre olhava-o enquanto acenava em sinal de concordância. Todo o seu discurso, em que as meias palavras escondiam a confissão das suas dúvidas, fora sintetizado pelas palavras inteiras daquele jovem que ele baptizara em tempos.
Alguém bateu à porta da sacristia e João apressou-se a abri-la. Do lado de fora uma vizinha sua cochichou:
- Ou bem que começa a missa e parte o funeral, ou bem que enterramos os teus pais depois do pôr do sol…
João sabia que a tradição mandava que se sepultasse os defuntos antes do sol posto. Olhou para a padre, atrás de si, e quando se voltou para responder à vizinha já ela tinha virado as costas e regressado ao seu lugar.
Na falta do sacristão o sacerdote pediu-lhe ajuda para a paramentação e ele, pacientemente, foi passando o que o padre lhe ia pedindo à vez, da alva à casula adamascada e depois à estola. Depois, pé ante pé, saiu da sacristia e dirigiu-se à primeira fila de cadeiras. Reparou que a igreja estava completa. Sentou-se e aguardou pela entrada do padre.
Cada uma das velhas ostentava um terço na mão e todas rebolavam, à vez, uma conta entre os dedos. Depois de João entrar na Igreja, entre soluços e sem esforço as velhas regressaram, acertadas e em coro, às Avé Marias. Tomavam fôlego as três ao mesmo tempo mas no fim de cada oração desacertavam o Amén, para que se ouvisse o mantra três vezes seguidas.
Das velhas João levou para dentro do templo o cheiro a lenha queimada e da água com que se lavaram de manhã, pormenores que logo se apagaram quando vislumbrou ao fundo do corredor de cadeiras da igreja, abaixo do altar e lado a lado, os dois caixões onde repousavam os corpos pais. Caminhou, sem pressa e parou defronte do altar. Então, abateu-se sobre ele uma tristeza tão profunda que nem o colorido das flores conseguiu evitar. Reparou que aquela tristeza, vinda bem de dentro, não lhe dava vontade de chorar. Olhou para uma das janelas que, a sul, deixava entrar uma luz que um vitral coloria de muitas cores. De pé, perante o que restava dos pais, inclinou a cabeça e não conseguiu pensar em nada que não fosse a luz que através da janela incidia sobre os seus pés. Fez um esforço para não sentir nada que não fosse aquela luz e só ela, porque receava ver o amadurecimento dos corpos e a dissolução no todo dos espíritos dos progenitores.
Deu-se por satisfeito quando se distraiu porque as pessoas presentes, ao verem-no ali de pé, se levantaram e fizeram fila para lhe dar os sentimentos. Sabia que os pais eram estimados pela vizinhança e as palavras que lhe foram dizendo enquanto esperava pelo funeral, mais o que ele via para além das aparências, confirmavam esse seu juízo.
O padrinho, que entrara na igreja um bom bocado depois dele porque o vício do tabaco o assaltava à porta de todos os templos, tossiu para chamar a sua atenção. Ao desviar os olhos na direcção do padrinho viu que ele acenava e lhe fazia sinal com o dedo indicador, apontando para a sacristia. Percebeu que o padre tinha chegado pela porta lateral do edifício e queria conversa antes da encomenda das almas. João pediu desculpa aos presentes e dirigiu-se à sacristia.
Encontrou o pároco frente a uma cómoda de três peças onde o sacristão dispunha cuidadosamente os paramentos, dia após dia, celebração após celebração. Em cima do móvel pontificava um crucifixo velho da idade da igreja e, para ele, rezava o clérigo um padre-nosso dito em voz não muito alta e num latim primoroso. João fez que se queria livrar do catarro e o padre, indiferente, continuou a oração. Só depois de ter cantado o Amen final olhou para trás:
- Ah! És tú, João. Então…a viagem de regresso às origens foi penosa?
- Tirando a razão por que a faço, nem por isso. Quando as distâncias são conhecidas e conseguimos que os pensamentos vagueiem, não se dá pelo tempo nem pelo incómodo. E depois…vim na companhia do meu padrinho – respondeu João.
- Sim, eu sei – ripostou o padre. Vi-o há pouco no adro e pedi-lhe que te dissesse que viesses até aqui…
Depois de uma breve hesitação o padre olhou para o tecto da sacristia onde sabia estarem quatro couros de anjinhos seminus e anafados, cada um deles pintado em seu canto. Confortado pela liturgia dos olhares ternos e tenros dos anjos continuou:
- Sabes? A idade que tenho já é muita e ando por aqui desde a minha ordenação. Já vi de tudo. E tudo quanto a Santa Madre Igreja me pediu que empreendesse, obedientemente empreendi. Desde exorcismos, baptismais e doutra natureza, até às práticas mais próximas do demónio do que de Deus, a tudo acedi por consciência da obediência que devo a quem, em nome do Deus a que rezo, governa a minha igreja…
João captou nas palavras do padre o início de uma confissão. O velho padre, o mesmo que o baptizara, estava ali com as ideias num turbilhão quase do tamanho do princípio de todas as coisas. Parecia disposto, também ele, a separar a luz das trevas, mas da sua vida.
(continua…)
Acabadas as férias regressou aos estudos. Curiosamente aquela pausa fê-lo duvidar da utilidade do saber dos livros. De regresso à escola sentia as suas convicções, a propósito da ciência e dos homens, cada vez mais frouxas. Atribuiu isso às situações que vivera durante a sua estadia na aldeia e à força com que as mesmas o tinham impressionado.
Após três meses em que dormiu mais do que esteve acordado e em que conseguiu nos estudos, mesmo assim, resultados acima do que seria de esperar, recebeu notícias do padre da sua aldeia. Tratava-se de um bilhete com apenas três linhas que o seu padrinho, visivelmente transtornado, lhe entregou naquele fim de tarde.
Recebeu, também ele preocupado, o bilhete . Desdobrou-o com todo o vagar do mundo por que sabia o que lá vinha escrito. O padrinho deixou-se estar de frente para ele e, colocando as mãos nos seus ombros, transmitiu-lhe através do olhar um sentimento autentico de desolação. Atónito, João cerrou a mão onde segurava o bilhete que acabara de receber. Enquanto o amarrotava viu cair-lhe uma densa escuridão diante dos olhos, muito embora os mantivesse com esforço bem abertos. Foi no escuro que então se fez que reviu aquele sonho mau que o perseguia desde a última visita aos pais. O que o padre reclamava no bilhete era a sua presença, uma vez que, não sabia com que intervalo, lhe tinham falecido os pais: os dois de uma assentada na noite anterior.
Tinha decidido abalar para o gozo das férias de verão dali a duas semanas, depois de fazer as arrumações de fim de ano. Perante os acontecimentos antecipou para a manhã do dia seguinte o regresso à sua aldeia. Fê-lo na companhia do padrinho, que entendeu acompanhá-lo no sofrimento.
A diligência serpenteava o caminho de acesso ao casario que se via ao longe, quando o padrinho, vendo que dormitava, chamou a sua atenção para o toque compassado dos sinos da igreja. As ondas sonoras que deles saíam refulgiam pela encosta acima, ao mesmo tempo coloridas e tristes. Entre cada dois toques caía um silêncio sem côr, sem cheiro nem sabor, próprio da tristeza da ocasião.
Não sendo a igreja muito grande, era rodeada por um adro generoso. A igreja tinha a orientação tradicional, com a cabeceira voltada a nascente, donde vem a luz. Toda a parede norte do templo era cega, sem janelas que se vissem de fora mas com elas pintadas no seu interior. Dizia o padre, em sermões de feições mais simbólicas, que assim tinha sido construida por que a norte não vale a pena abrir janelas para a escuridão e, por dentro, é de justiça manter a simetria que os templos devem oferecer aos crentes durante as orações.
Era aos pés da parede norte, por de trás de um gradeamento muito enferrujado, que se situava o cemitério da aldeia. Fora construido quando há mais de um século a lei mandou que se enterrassem os mortos fora das igrejas. Antes disso as famílias mais abastadas disputavam o chão do altar na esperança de que, enterrando os seus defuntos aos pés do Santíssimo, os caminhos radiosos do paraíso se abrissem com facilidade redobrada à sua frente.
A diligência parou frente à escadaria da igreja e, tanto João como o padrinho, saíram calmamente. Frente ao velho portal do templo, onde tenro e de cueiros tinha sido baptizado, sentadas num banco corrido de pedra, três velhas carpideiras que durante toda a vida fizeram de amigas da mãe, choravam, choravam, choravam...
gosto de escrever com poucas palavras
quase com o silêncio
quando souberes de mim mesmo que não escreva
deixarei calado o poema
a folha branca
ando intranquilo
bem me deito e encosto o corpo às nuvens
da minha cama de onde parto à noite
todas as noites daqui para a terra que sempre vi
suspensa na minha vontade desde criança
e onde o Natal acontecia doce
dia a dia
ando intranquilo
sempre que me levanto corro das núvens ao chão
lavo com água o corpo
só o corpo
e frente ao espelho pergunto a todos quantos vejo
quem não viu uma terra assim?
quem?
recolhe os sentidos que puderes recolher
e descansa de tudo
de tudo
dos olhos e sabores
dos odores e da pele
da arte fugaz das musas
descansa
deixa-te no pousio
e entra
Caíu na cama e, ainda não tinha encomendado a alma e o corpo aos anjos, já dormia que nem o justo dos justos. Dormiu e sonhou profundamente naquela noite. Andou por todo o lado, leve como as coisas leves que ficam suspensas quando a gravidade não as chama.
Quando os seus os sonhos eram bons e se, por qualquer razão, saía deles a meio, tinha por hábito cerrar calmamente os olhos procurando que o sono regressasse e que os sonhos tivessem a sua natural continuidade. Só que, depois de um intervalo, por mais pequeno que fosse, muito raramente lhe acontecia a cena ser a mesma: quebrada a lógica e a continuidade, destrambelhava-se a história, os personagens, o espaço e o tempo. Nem o sono, nem a vontade de regressar, conseguiam pôr tudo no sítio, por forma a retomar o enredo onde o tinha deixado.
Naquela noite, depois de um vôo rasante a uma montanha repleta de árvores centenárias deparou-se, no outro lado da encosta, com o funeral dos seus próprios pais. Era um sonho, ele sabia que era um sonho, mas mesmo assim estremeceu perante a antevisão da morte dos seus progenitores. Acordou num sobressalto, com o corpo em desordem. Para além dos suores frios o coração batia-lhe quase fora do peito e, como cereja em cima de um bolo, uma intensa dor de cabeça martelava-lhe as temporas. Tinha sido um pesadelo. Um sonho mau, mas tão real que o corpo deu mesmo sinais de viver o momento.
Desde criança que o realismo dos seus sonhos era assim. Ele sabia que a maioria das pessoas costumava ter sonhos descansados. Daqueles sonhos em que todos os males do mundo lhes pode acontecer que o seu consciente adormecido os encara como se fossem uma peça teatral a que assistem na plateia. Não era assim com ele. Os seus sonhos eram outros e, a serem peças de teatro, ele era o protagonista de uma acção que se confundia com a realidade. Ou seria ela mesma...(?)
Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e bebeu um copo de água. Regressou depois à cama e não pregou mais olho até que o sol nasceu. Olhava para o tecto do quarto e via lá reproduzido o mesmo pesadelo.
Lembrou-se dos que dizem que os sonhos são visitas aos mundos paralelos e que, uma vez lá, o sonho e a realidade invertem os seus papeis. No conforto quente da cama o sonhador é o sonho, enquanto a realidade se desenvolve à margem da sua vontade. Lembrou-se que sempre entendera os sonhos como uma das formas da revelação das coisas futuras. Sete foram as espigas gradas e sete as falidas. Sete foram as vacas fracas e sete as robustas. Tudo viu o Faraó. E lembrou-se, também, da “História do Futuro”, Vieira no seu melhor: “o primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar coisas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem, é para que conheçam clara e firmemente os homens, que todas vêm dispensadas por Sua mão”.
Se a realidade é ou foi o sonho, e se o sonho é ou será a realidade, em que mundo vivemos então? Na lógica das coisas futuras, porquê aquele seu sonho e não outro? Predestinação? – perguntava a si mesmo, sem se atrever a esboçar uma resposta.
(continua...)
quando fui carteiro punha as mãos
assim ao de leve nas cartas
e via lá dentro o açúcar das palavras doces
e a tristeza das letras desencontradas e tristes
com um sorriso aberto entregava umas
e as outras o dever dizia-me que as entregasse
quando fui soldado com soldados irmãos
entre mim e eles ouvia o clarim
que sempre me dizia que as alegrias
chegariam com o carteiro que também fui
e as tristezas todas ali no campo onde
poucos gritavam a sua condição de homens
enquanto outros me diziam saber por que eram soldados
com um sorriso aberto recebia uns
e aos outros o dever mandava-me que lhes desse tão só
a minha Paz
lá fora o deserto
cá dentro os frutos do Homem
a Palavra
nua
singela
Foto:Celebração Copta - Mosteiro S. Bishoy/Sacristia - Cairo/Egipto (Março08) - LNM
Ao perceber que o cavalo seria entregue ao dono no dia seguinte, João respirou profundamente e viu-se a passear com ele naquela noite. Por momentos pensou que o passeio seria uma prova talvéz muito dura para o animal. Seria ele assustadiço?
- A escuridão assusta até os homens mais crentes, quanto mais um cavalo... – disse em voz alta para surpresa do pai, que não entendeu por que ele o dizia.
Lembrou-se então de consultar o calendário da memória e percebeu que a lua estaria cheia. O céu azul claro do dia fê-lo presumir uma escuridão estrelada, sem núvens a impedirem uma lua luminosa.
A luz prateada da lua cheia seria sua companheira, a mesma luz fria das noites claras que ele sempre ouvia num som baixo e contínuo, escuro e baixo de mais para se confundir com a luz branca do dia, visível e alto de mais para confundi-lo com a escuridão das luas novas.
E naquela noite, à sucapa dos pais, saíu com destino à ferraria. Encontrou o cavalo deitado no feno com que o pai lhe fizera a cama. Quando chegou perto do animal ele deixou-se estar tranquilo como até ali. Depois de alguma conversa e meia dúzia de palmadinhas amigáveis levantou-se, resoluto. João abriu as portadas do estábulo, descalçou-se apressadamente e, assim mesmo, sentou-se no dorso nú, com intenção de partir para onde o cavalo o quisesse levar.
Foi uma correria doida em que a trote se libertava um arco-íris que permanecia visível no escuro e ofuscava os astros, enquanto a galope, ora cheirava a ervas silvestres que ele nunca vira por ali ora, subitamente, ao iodo das falésias longínquas sempre batidas pelo mar, sempre.
Nem o facto de ser noite, nem mesmo a penumbra das árvores deixaram que o passeio fosse menos alegre. Através dos sinais de todos os seus sentidos ele recolhia da transpiração do cavalo uma alegria genuina: era uma criança que ali estava cabriolando com ele, num entendimento de uma pureza que só eles os dois entendiam e que ele, possuidor do dom da palavra, não conseguia encontrar nem uma para explicar o contentamento em que ambos estavam.
João perdeu-se. Sabia que corria sentado no dorso do cavalo, muito embora tivesse deixado de o ver. Apenas sentia os seus pés quentes e suados de tão apertados contra a barriga do animal, tudo o resto era a luz da lua, as cores do arco-iris, as ervas e o mar. Esteve assim perdido uma eternidade e, quando finalmente regressou, o vento morno festejava-lhe o rosto e os pés acalorados por tantas emoções.
Voltaram ao estábulo da ferraria pouco passava da meia-noite. Regressado a casa encontrou a mãe sentada na cozinha bebericando um chá quente. Ele entrou e manteve-se em silêncio e a mãe, sentindo-se na obrigação de dizer o que quer que fosse, desculpou-se com a sopa do jantar, que lhe caíra mal e lhe fizera pesadelos.
Ele percebeu que a preocupação da sua velha era outra: dera pela sua saída e ficou com a preocupação das mães.
(continua...)
era esta a Luz que eu pocurava...
encontrei-a longe,
longe das multidões.
onde as Rosas são a claridade perfeita.
e o azul está onde deve estar...
no infinito.
acima dos homens.
Na casa d'Ele.
Foto:Mosteiro Copta de S. Bishoy (Sec IV)-Cairo/Egipto(Março08)-LNM
se eu tivesse o segredo das coisas mais simples
ter-me-ías dado à luz
mãe
como aquela árvore maestosa
que a chuva fez crescer comigo
eu teria crescido com ela e tú
ao longe terias visto o teu menino diferente
em cada estação e a nascer sempre
em março todos os anos
todos
ah!
quantas vezes serias minha mãe?
e quantas vezes te chamaria quando te chamasse?
por que nome gritaria eu nas noites frias
quando o frio caisse rigoroso?
O filho surpreendia-se com a desenvoltura com que o pai diagnosticava as maleitas de toda daquela fauna e os conselhos que distribuía pelos seus donos. Ao vizinho pastor recomendava:
-Tenha lá mais cuidado que a erva orvalhada desarranja as tripas do rebanho. Para a próxima não vá tão cedo para o pasto...
Ao dono da vaca que entendia que ela tardava em parir dizia, depois de manipulações na partes íntimas do animal:
- Não está no tempo. Para a semana faça-lhe bem a cama todas as noites e aos primeiros sinais mande-me chamar, que o bezerro não está como devia estar.
Mas o que o surpreendeu verdadeiramente foi quando ao fim da tarde lhes trouxeram um cavalo quase vermelho, côr de fogo. O animal escorria ainda o suor de um dia de actividade aturada, equilibrava-se a esforço em três pernas e resfolegava, enquanto movimentava insistentemente a cabeça para cima e para baixo.
Depois de acalmá-lo, João desatou-lhe os nós que trazia na crina e no longo rabo. Afastou-se para apreciá-lo por inteiro e concluíu que aquela perfeição de formas não era habitual em animais de trabalho. A côr do pêlo refulgia sons doces como os que ele costumava ouvir quando olhava para os troncos de madeira nua. O cheiro, esse, não era tanto o que o que seria de esperar, mas antes o da frescura e do sabor que perto mar se sente. Na verdade era quase espuma de maresia que aquele cavalo transpirava.
Fixou-o nos olhos e nenhum dos dois fugiu ao olhar do outro. João viu a dor que incomodava o animal e apercebeu-se que não vinha de dentro, porque tudo o que aquela pele rubra limitava respirava saúde. Ao dar-lhe uma palmada no flanco tremeu-lhe debaixo da mão o sangue puro que nele corria e viu confirmada a confiança entre os dois.
Estava assim, quando o pai se chegou à perna dianteira que o cavalo mantinha recolhida e, pondo a canela nos seus próprios joelhos, reparou numa pedra ponteaguda encravada entre a ferradura e o casco do animal. Pediu ao filho que lhe passasse uma turquez e, um a um, retirou os cravos e a ferradura já muito gasta. Concluiu depois que tinha de calçar o bicho por inteiro, já que as restantes ferraduras não estavam também em condições.
Depois de retirados todos os ferros, Belarmino aparou-lhe os cascos e, ao verificar que não tinha à mão ferraduras da medida necessária, arrependeu-se de as vender também a forasteiros que por ali passavam e que entendiam que a sorte os acompanharia se as comprassem à sexta-feira e se as levassem para casa segurando-as na mão esquerda. Crendices...
- Paciência! - Disse ele em voz alta enquanto coçava a cabeça.
Olhou para a claridade da rua, chamou uma criança que brincava por ali e mandou dizer ao dono do cavalo que na manhã seguinte o trabalho estaria acabado.
(continua...)
Para chegar ao quarto onde dormia a aventura foi a mesma que para sair dele, fora o cão que não se deu ao trabalho de sair da casota e resolveu ladrar e ganir mesmo de lá. Tal como os seus companheiros caiu em peso na cama, vestido e calçado, para um sono profundo. Afinal cansava-se mais do que eles porque vivia também o cansaço dos outros.
Na manhã seguinte recebeu notícia de que os seus pais não estavam bem de saúde. Foi o padrinho que lho disse enquanto tomavam o pequeno almoço. A idade mais o rigor do inverno tolheram a saúde dos dois, de uma acentada. Não sendo por enquanto nada de muito grave e uma vez que os pais tinham vizinhança boa e dedicada, o padrinho aconselhou-o:
- Estás em época de exames e havendo certeza de que não é coisa de gravidade, deves redobrar os estudos para, quando entenderes visitá-los, teres o prazer de lhes dar boas notícias.
- Concordo. Mas fico, até lá, numa ansiedade que não sei se me proporcionará grande motivação... - respondeu .
- Não é mesmo nada de grave, a fazer fé no que me dizem. Está tranquilo e aplica-te.
- Farei o possível...- retorqiu, levantando os sobrolhos.
Durante a curta conversa ele sentiu a sinceridade do tio. Quando saíu para as aulas fê-lo com redobrado afinco e com a esperança de que as férias viessem rapidamente.
Em finais de Março pôde finalmente visitar os pais. A viagem pareceu-lhe muito longa e a estadia relativamente curta, porque duas semanas são muito pouco tempo para pôr em dia as conversas há muito acumuladas no diário.
Encontrou os pais na lida diária: a mãe nas tarefas caseiras, sempre a limpar o que imaginava estar sujo; o pai na ferraria, onde já a custo calçava os poucos animais que a vizinhança lhe levava. Os dois mais gastos pela idade, que parecia ter-lhes caído em cima desde que estiveram doentes. Recuperaram, é certo, mas tinham perdido agilidade em pouco mais de dois meses.
Num dos dias resolveu acompanhar o pai na ferraria. Foi pouco o trabalho de ferreiro, mas muitas as opiniões que pediram sobre o estado de saúde de animais que apareciam á trela dos donos. Ora porque o bezerro tinha perdido o apetite, ora porque a ovelha tinha a barriga inchada de tanto ar, ora porque a vaca tinha os cornos frios de febre. Belarmino, a uns receitava chá de silvas, a outros de arruda e assim por diante. Mas sempre terminava aconselhando sopas de cavalo cansado: pão, vinho e muito açúcar a todos promoveria as melhoras.
(continua...)
Aquele dom desde sempre o atrapalhara e confundira. Por ele fugia a sete pés da miséria alheia porque a sentia como sua. Em silêncio chorava a dor dos outros e por isso saía a correr, como o diabo da cruz, das atmosferas tristes e mais comoventes. Mas quando estava em ambientes satisfeitos sentia, vindos de toda a parte, os prazeres desencontrados dos presentes, ao ponto de rir pelos outros e de amar com eles.
Era assim que se sentia naquela taberna. Os prazeres do riso das anedotas brejeiras que pairavam no ar apertavam-lhe o peito porque não podia rir de tantas brejeirices ao mesmo tempo. O humor mais fino e educado dos cavalheiros exigiam, por sua vez, um compasso de espera para boa compreensão. E a sua alma enchia-se de satisfação com a alegria e o bem estar de todos e, como sempre acontecia nos momentos de maior intensidade dos seus sentidos, sentia uma necessidade urgente de se desligar, ainda que por momentos, de tudo quanto o rodeava.
Estava assim, como se não estivesse, quando alguém, mesmo frente aos seus olhos, estalou os dedos para que acordasse. Foi então que sentiu que no andar de cima, espojado numa cama, um dos seus amigos se encontrava com uma rapariga de ocasião… e ele ali, atrapalhado, com dificuldade em esconder o prazer que sentia por eles os dois.
Era nesses momentos únicos que olhava para trás e compreendia que nascera como nascera porque trazia consigo, desde que fora parido, aquele segredo. Sabia-o claramente desde menino com entendimento e todos os que diariamente com ele privavam percebiam-no, ainda que ele nunca comentasse. Na verdade, os seus cinco sentidos eram mais que cinco: uns faziam o trabalho dos outros sem que a sua vontade os dominasse.
- Faz-se tarde – disparou, enquanto se levantava.
Dirigiu-se para a porta em movimento apressado. Um dos companheiros pediu-lhe que esperasse por uns minutos, ao que ele acedeu dizendo que esperava por eles fora de portas. Quando o amigo saíu pôde ver pela porta entreaberta que o mais ousado descia as escadas de acesso ao primeiro andar, ainda com o cinto desapertado, os sapatos soltos e passando as mãos pelo cabelo. Percebeu que o amigo, meio atrapalhado, ainda fez um aceno a uma moça que, ao cimo das escadas, lhe fazia adeus e encolhia os ombros.
De regresso a casa, esfregava as mãos para aquecê-las. Caminhava a leste de tudo quanto os outros diziam e riam, enquanto repetia em voz baixa para si:
- Regresso virgem... como saí...e daí?
Os outros, ao ouvirem-no balbucear, calaram-se. Foi o mais ébrio que lhe perguntou:
- O que remois?
- Trago, para além de tudo quanto já levava, mais uma dúzia de arranhões. Só isso – respondeu.
E continuaram de regresso a casa, rindo e cantarolando.
(continua...)
Chegados ao destino, uma casa térrea que a escuridão quase não deixava ver, esperava-os o ambiente acolhedor de um espaço pouco mais iluminado que a noite e uma dezena de mesas bem apetrechadas de gente e muito vinho. À entrada descobriram a cabeça, sacudiram a água da roupa e, só depois de habituados ao nevoeiro do tabaco é que os seus olhos descobriram os contornos dos outros convivas. Era uma mistura de cavalheiros, porque aparentavam estar bem na vida, com gente reles, de aspecto mal lavado e habituada a malfeitorias. O que a todos unia, pais de família e malfeitores, era a monumental bebedeira em que todos nadavam e os pirôpos que disparavam, em uníssono, sobre duas jovens que serviam as mesas.
Depois de breves momentos de espera sentou-se com os seus companheiros numa mesa que vagou perto da lareira. Serviram-lhes vinho tão morno quanto o ambiente. João levou o copo à boca e enquanto bebia misturaram-se os seus sentidos, ao ponto de não perceber se ouvia o sabor do vinho ou se apenas tomava o seu gosto. E se metia o nariz na caneca e aspirava o cheiro tinto do líquido, era então que lhe sentia o sabor e via os seus eflúvios dispersarem-se pelo ar, ao seu redor. Depois de meia dúzia de copos, já toldado pelo álcool, sentiu-se aconchegado no canto em que estava sentado. Era como se fosse espectador de muita coisa, quase tudo o que na taberna se passava.
De olhar vago deixou que o corpo também assim ficasse, e tudo sentia misturado, percebendo tudo da maneira mais completa que se pode perceber as coisas que acontecem. Estava ali como se estivesse de fora e, ao mesmo tempo, como se fosse tudo aquilo e tudo aquilo que percebia estivesse dentro dele.
Como sempre acontecia em circunstância semelhantes, arrepiou-se da cabeça aos pés e num sobressalto acordou, sem que tivesse a consciência de ter dormido um segundo que fosse…
Os companheiros de noitada cantavam alegremente as virtudes da noite, do vinho e dos amores menos castos. Ele, mais pensativo do que era costume, tentava perceber, como sempre fizera, o que se passava consigo. O vinho trazia-lhe à memória o segredo que desde sempre o acompanhou. O vinho trocava-lhe as voltas e tornava mais perceptíveis os mistérios que o acompanhavam desde que nascera.
(continua...)
As aulas de matemática eram para os professores um quebra-cabeças sempre que o João resolvia dar contributos. Ficou para a história, era ele um adolescente de quinze anos, a resolução de problemas matemáticos complexos pelo método da estética matemática, método por si inventado e que, apesar de todas as explicações que dava, apenas ele parecia compreendê-lo. O método resumia-se a um olhar, tão penetrante quanto abstracto, que dirigia às expressões numéricas. E desse olhar profundo que perscrutava a essência dos números, a resolução surgia por mais complexos que os problemas fossem, tão só por que a beleza e formosura das sequências lhe diziam ser aquela, e só aquela, a solução mais bela. Dizia então, com postura enigmática, que era ali que aquele número tinha de estar, e não antes nem depois. E, de expressão em expressão, os sinais de igualdade eram os fieis de uma balança que só ele via e tudo o que escrevia depois de cada um deles condensava, de forma cada vez mais simples, a beleza dispersa nas expressões anteriores: até à solução final a que, com um sorriso tão inocente quanto malandro, chamava de êxtase.
Invariavelmente a solução era a que ele apresentava, mas nem sempre eram claros os passos, quase de mágica, que usava. E quando o professor, transtornado por não entender aquela lógica tão pessoal, lhe perguntava:
- Mas afinal o que é isso? És capaz de me explicar de modo a que eu entenda?
- Bom... é assim... – Começava ele por dizer e, depois, desfiava um rosário de explicações que a todos maravilhava e convencia, mas que terminava sempre com a simetria que ele achava que todas as coisas deviam ter.
Para a história ficou também uma saída nocturna com um grupo de amigos, numa escapadela que a ausência do padrinho lhe proporcionou. Aconteceu numa noite de invernia escura e chuvosa, que mais convidava ao quentinho dos lençóis que a passeios com destinos pouco virtuosos.
Dois dos seus companheiros aguardaram-no numa das janelas das traseiras da casa, bem longe dos aposentos da mulher do padrinho e da governanta. Ele desceu a custo por uma trepadeira que ali crescia agarrada a uma grade de madeira. Lá baixo o cão de guarda ladrava e gania ao mesmo tempo, ora fazendo ameaças enquanto ladrava, ora abanando o rabo enquanto gania. O seus deveres de guarda diziam-lhe que devia mostrar os dentes, enquanto a intimidade com os rapazes fazia com que abanasse o rabo e pedisse desculpa ganindo. Quando João pôs o pés em terra firme o cão calou-se e, contada uma dúzia de arranhões, partiram os três, ele meio coxo e os outros dois numa risota pegada, para uma noite que queriam memorável.
(continua...)
Depois do baptizado o padre e o sacristão, com a pressa de irem às suas vidas, encarregaram-se de enxotar todos os presentes da igreja e, mal puseram os pés no adro, a porta bateu ruidosamente.
Para o almoço de celebração todos foram convidados e quase todos se escusaram com desculpas que foram piedosamente aceites pelo casal. O padrinho escudou a sua ausência em negócios que ao fim da tarde tinha de fechar na cidade. A madrinha vendeu a todos a ideia de uma enxaqueca que desde o dia anterior lhe atazanava a cabeça. Na verdade apenas a família mais chegada acabou por estar presente no festejo que se estendeu pela tarde e pela noite dentro.
Na mesa, tão só as coisas que a terra dá para alimento dos homens, pouca carne e muitos doces de mel. No ar a música de um acordeão tocado por um vizinho cego de nascença e, talvéz por isso, mais sensível ao que a vista não vê mas o coração sente.
A inteligência precoce de João fez com que o padrinho o aceitasse em sua casa quando chegou o tempo dos estudos. Foi assim que muito cedo saiu da beira dos pais e rumou à cidade. Mais tarde diria que o fez não tanto por convicção no seu próprio futuro mas por necessidade de ver, como só ele sabia ver, o que era uma aldeia grande.
Na cidade, perdia-se na profusão de ruas e becos e dos pensamentos desencontrados de tanta gente. Não sabia o que era mas não desdenhava a urbanidade, porque junto dos outros se entendia a si próprio. Mas era quando regressava de férias que sentia a sua alma ancorada em bom porto. Os passeios que dava então pelas veredas faziam-no regressar ao tempo em que as árvores lhe davam as boas vindas e o ribeiro fervilhava colorido, coisa que só ele conseguia ouvir e ver.
João cresceu e fez-se homem de hábitos invulgares. Todos os que com ele conviveram tinham histórias mais ou menos fantásticas para contar a seu respeito. Fantásticas, mas todas elas verdadeiras.
Os que com ele andaram na escola lembravam-se das brincadeiras em que ele levava sempre a melhor. Às vezes nem eram brincadeiras mas coisas muito sérias, passadas entre ele e os professores. Uma vez, tinha ele oito anos, na sequência de uma travessura ficou de castigo. A professora mandou que se virasse para a parede com a intenção de deixá-lo ficar assim por tempo indeterminado. A aula continuou com a professora a escrever no quadro rimas de números, porque a aula naquela manhã era de matemática. De costas para o quadro, e para surpresa só de alguns, ele foi dizendo tudo quanto a professora no quadro escrevia. Inexplicavelmente, de início também para ele, o ruído do giz sobre a ardósia trazia-lhe aos ouvidos os números e, quando a professora escrevia de forma mais suave, se o ouvido não conseguia perceber as contas ele descobria-lhes as cores. Cores que via soltarem-se da parede branca para a qual estava voltado.
(continua...)
Receosos, não fosse o diabo tecer-lhe a morte, os pais resolveram baptizar o rapaz tendo a pressa por conselheira. Na semana seguinte ao nascimento, ainda Maria não andava como dantes, e já Belarmino tinha agendada, para domingo, a lavagem da alma do pequeno. Não que acreditassem em pecados originais ou limbos eternos. Os seus receios eram, antes, fruto das impressões relatadas pelas comadres parteiras, que a toda a gente pediam segredo mas que a todos da aldeia fizeram questão de descrever as circunstâncias em que o parto ocorrera, ao ponto de constar que o seu rebento era obra do demónio...
No domingo aprazado o casal, os convidados e a vizinhança estiveram presentes na missa das dez, para depois da qual o baptizado estava marcado. A missa decorreu como normalmente e só as preocupações de mãe fizeram com que Maria estivesse mais atenta ao seu rapaz do que às palavras do padre. Percebeu, mesmo assim, que o sermão daquele domingo remetia os presentes para o padre António Vieira e que estava repleto de referências às palavras de Santo António ao peixes. Falava de cardumes e de um mar fértil que, apesar de não ter dono, sempre teve quem o achasse seu.
Depois da prédica inflamada do padre lá se dirigiram para a entrada do templo. De acordo com a tradição a pia de água benzida ali estava à esquerda de quem entra, porque da esquerda se recebe, e era redonda, porque a infinitude é um atributo divino. Era uma obra de arte tão antiga quanto a memória da aldeia. Pedra trabalhada como filigrana, a destoar da austeridade dos arcos quase nús do templo, feita assim porque a arte é também o melhor dos sabões da alma.
As pais e a família mais chegada tomaram posição ao redor da pia. O padrinho viera da cidade, onde fizera amizade com Belarmino quando ele andou pelo serviço militar. Amadrinhou-o uma sua prima tão afastada quanto abastada e solteirona...
Era visível a felicidade dos pais quando a escuridão se iluminou com o acendimento da vela que a criança segurava na mãozinha trémula com a ajuda da mãe. Tirando a família todos os presentes pareciam estar ali contrariados, até mesmo os padrinhos, que aceitaram o encargo só para não fazerem desfeita. A contrariedade dos convidados tinha por companhia o olhar desconfiado do padre que parecia estar a fazer aquele baptizado a contragosto. E foi perante a felicidade dos pais e da família, a contrariedade dos convidados e a desconfiança do padre, que este exorcizou o pequeno e lhe deu o baptismo e o testemunho da fé, que os pais pediram por ele.
A tudo a criança assistiu num misto de curiosidade e de espanto. Os pais deram-lhe o nome de João e de cada vez que o padre repetia o seu nome, admirava-se porque a criança lhe respondia com um sorriso aberto, como se visse as cores do arco-íris diante dela. Todos viram também que a cada palavra do sacerdote o pequeno João respirava profundamente, como se quisesse sentir-lhe o cheiro e, quando finalmente a água cristalina lhe molhou a cabeça, a sua boca acompanhou o sabor fresco que a pele sentia.
(continua...)
Belarmino ferrava na altura uma égua de cor imprecisa mas de forma e feitio perfeitos. Tratava-se de um animal de contornos e comportamentos muito dóceis e ele atribuiu ao facto significado. Lavou apressadamente as mãos e a cara, tirou o avental ferrugento e pôs-se a caminho de casa.
As comadres do costume já tinham sido chamadas de emergência e quando ele chegou já elas tinham tomado as rédeas da situação. O lume estava desperto, a água em vias de ferver e vários lençóis estavam empilhados para o que desse e viesse...
Foi curta a hora. Sem esforço que se visse a criança lá nasceu. Foi com satisfação desmedida que as comadres disseram a Maria que se tratava de um menino. Foi de lágrimas nos olhos que ela pediu que lho dessem para aconchegá-lo ao peito e, como quem não quer a coisa, mirou-o com olhos de ver e concluiu a inspecção conferindo as mãos e os pés da criança, não fossem os dedos estarem alterados.
Recolhidas as sujidades e arrumado o quarto, a porta abriu-se para a visita do pai. Belarmino e Maria conversaram uma conversa que durou o tempo de muitos olhares e poucas palavras, tal era a alegria que lhes iluminava o íntimo.
Ao lado, quase recolhidas perto da janela e da arca, as comadres comentavam as impressões do parto:
- Estranho – disse uma – foi o primeiro que trouxe ao mundo e que não chorou quando aqui foi posto... a comadre viu como ele arregalou os olhos? Até parecia espantado! Não parecia?
- Sim – acrescentou a outra - arregalou os olhos, espantados, e depois deu aquele suspiro, que até me arrepiei...
- E aquela boquinha aberta? A comadre viu bem aquela boquinha? - remataram as duas em coro
Naquele momento as comadres encontraram os seus olhares e mistérios e ambas perceberam, vá-se lá saber como, que a criança verdadeiramente saboreara o acto do seu próprio nascimento.
(continua...)
Era quase verde a aldeia esquecida onde viviam. Escondida pela verdura, só o fumo e o cheiro da madeira ardida deixavam pressentir o casario e a gente. No outro lado da encosta, a planície desde sempre fora o celeiro dos que ali viviam. Também eles eram dali. Mas não era deles a terra, mas eles dela. Isso mesmo conversavam nas noites quentes de Verão quando, sentados à soleira da porta, sempre diziam que não consideravam sua aquela terra, porque eram eles que lhe pertenciam.
Eram muito jovens quando uma gravidez inesperada os obrigou ao casamento. Ela com pouco mais que dezasseis anos e ele por aí, também. Fora no restolho, ao cair da tarde e depois da festa das colheitas, que uma conversa de olhares os aproximou. Foi no restolho que se entregaram...
Enquanto ela sentia o seu corpo crescer, cresceu-lhe também a fé e a necessidade de uma confissão. Estava de três meses, nas suas contas, quando entregou ao padre da aldeia a notícia do que fizera. O padre, que a tinha censurado de inicio por vê-la tão arredia da confissão, percebeu então os motivos da distância. E fez do casamento uma urgência.
Passou o tempo sem que da gravidez resultasse qualquer nascimento. Apreensiva, visitou uma velha curiosa que lhe deu conta de uma meia dúzia casos passados na aldeia, em que sucedeu as coisas parecerem o que não eram.
- Mas porquê? Como pode isso acontecer? – perguntou ela.
- A esperança tem destas coisas minha filha ... – respondeu-lhe a velha de forma enigmática.
Ela reflectia no casamento apressado pelo padre e concluía, como toda a gente, que a pressa nunca fora boa conselheira. Ele pensava o mesmo. Mas ambos, curiosamente, não davam por perdido aquele casamento de emergência.
Continuariam um casal sem história digna de ser contada, não fora o sucedido depois de trinta e cinco anos. Era Novembro e a chuva e o frio teimavam em cair havia mais de uma semana. Estavam na cozinha e ao lume fervia o que seria uma sopa de entulho, quando ela se virou e lhe disse, enquanto passava a mão pelo ventre:
- Belarmino?! Sinto crescer cá dentro não sei o quê. Aqui...
- Mulher!!! Sabes o que dizes?
- Sei...sei muito bem... – terminou ela pondo fim à conversa.
Depois de tantos anos de angustiosa espera não lhe passava pela cabeça que a sua Maria pudesse estar de esperanças. Ao fim e ao resto quantas mulheres dão à luz depois dos cinquenta?
Belarmino viu-se assaltado pelos instintos da paternidade quando já tinha posto de parte a esperança de algum dia vir a ser chamado de pai. Da primeira vez via-se na condição de pai de uma rapariga que imaginava de laçarotes no cabelo e ao seu colo. Agora visualizava secretamente uma criança, apenas uma criança, cujo sexo lhe era indiferente.
Ela, por sua vez, sentia-se estranhamente calma para aquela ocasião tão singular. Via-se como uma mulher de cinquenta anos bafejada pela fortuna de ser mãe de sorte inesperada.
Desta vez não fora no restolho que se entregara, mas era no restolho que sempre se via quando Belarmino se aproximava pedindo, e dando, a ternura que sempre lhe dedicara com mais peso do que conta e medida.
A barriga avolumava-se a olhos vistos. Os sinais do seu corpo eram claros e sentia a vida dentro de si, em crescimento. Foi por isso que recuperou do sótão, pacientemente, o parco enxoval que no passado longínquo tinha juntado com todo o carinho de adolescente. E enquanto redescobria as pequenas vestes prometeu a si mesma que não faria outras. No fim de contas aquele era para si o mesmo filho. O filho que tanto desejara e que o destino (ou teria sido o acaso?) achara prematuro pôr-lhe na vida.
Era sobre tudo isto que Maria conversava com Belarmino quando ao fim do dia ele regressava da ferraria, cansado de calçar as cavalgaduras da aldeia. E gastaram assim os meses da gestação até que, perto do meio dia em que a primavera chega, ela sentiu as águas escorrerem-lhe pelas pernas e mandou que dessem disso alarme ao companheiro.
tão perto foste minha estrelada
e austera flôr de anis
tão certo assim tinha errante e afastada
a espera que ao longe cria sem querer
que além mas não perdidos via também
sinceros os teus olhos e o teu mosto perto de mim
no teu rosto de mulher
diz-me o que não dizes
em silêncio
quando nem as palavras nascem
fala-me dele
da escuridão do som e do escuro das noites escuras
e também da luz
da noite grande luminosa
diz-me
diz-me que dezembro só é frio
quando queremos que seja frio
é da minha varanda que vejo tudo
assim tão pequeno e raso
lá baixo
não me lembro se foi nos livros que li
que a distância faz as coisas pequenas ao ponto
de não as vermos mesmo quando lá estão
sempre
presumo que é na minha varanda então
que nasce a distância dos caminhos
a dimensão das horas
o tamanho das searas maduras e o tempo
que leva no verão a ceifa
só estou perto de tudo quando amanhece
perto de tudo mesmo que não queira
e então
também escrevo cartas de amor
poemas brancos sem linhas que me levem
onde todos vão
não fecho os olhos por acaso
só porque estou e não quero ir
o acaso não tem lugar aqui
nunca teve lugar onde estamos
nunca esteve para estar connosco
e dizem que os rumos de quem quer
são ligeiros
sempre ligeiros
como podem?
sento-me à soleira do teu corpo
quieto na vontade
e meigo nas ambições
encosto-me ao berço do tua voz
ao teu peito
de murmúrios tenros
e só eu sei
só eu sei
como adormeço
(Republicação)
não sou de cá, dizes-me tu.
não és.
não és mas sabes
que todos os rios conhecidos moram aqui...
onde?
aqui. na fonte dos caminhos.
no teu peito...
ouço-os
e sempre te digo que os tambores
quando rufam assim são nódoas
não pode ser este o acaso das tuas mãos
não podes cegar a virgindade das bandeiras assim
com este sono intranquilo
canto Saturno mais os grãos que deitou
ao chão do Olimpo e às brisas nocturnas
onde me deito
guardo a chama que Júpiter quis
das Ninfas que o guardaram por Cibele
das amas que lhe deram leite
e mel de rosas maduras
a dramática lógica da batata
mata a isoiética parabólica
da pata que pariu a acústica
elíptica da fonética marata
a álica ceifada fica erecta
encafifada no ameno feno
no pó da mó da atafona
e o moleiro de quiriotecas
(que fazer farinha é ritual)
abre portas frestas e janelas
e de malga de intrita na mão
assim grita
irra!
Irra!
que entre catacáustica luz
que ilumine a dramática lógica
da batata que pariu a catacústica
de que tanto se fala
e ala
ala que se faz tarde
irra!
não te digo hoje
não te digo amanhã porque do tempo
tenho a leitura das palavras
cada letra uma espiga só uma
e em cada poema a demora das searas
colho a graça das perfeições nuas
porque as formas são apenas formas
na cal dos muros
e na penumbra da verdura que deles cai
está Juno deitada na brancura de todas as cores
que o branco tem
sempre que a noite se cala
quando cresce o sol
e a lua desce
há cidades onde
os cães passeiam os donos
e correm do futuro para o passado
as águas que o tempo dá
não me peças
de regresso o sândalo
não me queiras
âmbar
de regresso ao leito
gosto de trazer os rios
e o incenso
da rosa
em que outro mês caberia
um dia só
do trabalho?
e do silêncio?
que outra lua seria
o branco de todas as noivas?
que outras cores se não todas
para maio
das papoilas?
de que outra mãe serias filho
Hermes?
navego em terra
seguindo faróis de marear
desenho no chão da tua pele os caminhos
e abalo assim
perdido como sempre