Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011
Diz-me... (I)

O azul-negro da indumentária contrastava com o xaile vermelho vivo que à pressa lhe emprestaram para cantar aquele fado. Sempre gostara do improviso e a espontaneidade assaltava-a também nas ocasiões em que, espectadora dos fados dos outros, assistia tranquilamente aos trinados, lamentos e guitarradas dos curiosos, fadistas vadios como ela.
Tinha para essas ocasiões três ou quatro fados de cartilha, que ao longo dos anos foi apurando na garganta e nos sentimentos. Resistia sempre ao primeiro impulso, que sentia quando o pé direito, quase contra sua vontade, marcava a cadência possível, escondida mais nas palavras que na musica que escutava. E quando alguém perguntava se entre a assistência havia quem quisesse dar um ar da sua graça, ela saltava então para junto dos guitarristas e violas, dava-lhes duas ou três dicas mais o tom em que se sentia confortável e, depois de pedir um xaile emprestado e rompido o silêncio com a musica frágil dos instrumentos, fechava os olhos e soltava a voz umas vezes mais cristalina que outras, conforme o tempo, a disposição e o sentimento da altura.
Pouco lhe interessava se o fado vinha das lamentações dos escravos ou das profundezas dos desertos africanos. Bastava-lhe dar por si possuída até à profundeza da sua alma, por sonoridades que lhe saíam de dentro do peito e a arrepiavam de ponta a ponta como se apenas ela existisse enquanto cantava. Ficava então só consigo mesma e com a impressão de que era tão só para si mesma que entoava as sílabas que arrastava à procura do melhor tom para sair delas. E enquanto não rematava a frase arrastada, as guitarras e violas esperavam dela um sinal quase imperceptível que costumava dar com os dedos da mão direita enrolados no xaile. E ao sinal os instrumentos e ela continuavam o fado com mais determinação, até ao arrebatamento final. Era então que batia o pé direito com afinco para que a voz se lhe soltasse mais firme, como convinha em qualquer ponto final.
Depois dos aplausos que mesmo antes de terminar se soltaram pela sala e de vislumbrar, quase no escuro, espectadores que, de pé, gritavam de forma sentida a sua condição de fadista, ela agradeceu para a penumbra da sala, onde presumiu pelas velas acesas em cada mesa, estarem perto de uma centena pessoas a escutá-la. Depois do agradecimento olhou para o tecto da sala e agradeceu a quem a conduzia lá de cima. Era uma coisa muito sua, porque quando caía em si e se entregava toda ao fado, sentia sempre ali a mãozinha de alguém, que presumia serem os seus antepassados a conduzirem-lhe a voz.
Depois desculpou-se para não cantar mais, com a voz cansada pelo fumo que pairava no ar. Mas não era só do fumo…
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011
Os outros
é do outono
a chuva mansa que molha os tolos
o sorriso indefinido que nos surge nos lábios
quando molhados
porque tolos são os outros
e nós os sábios
é do outono
o sol rutilante acima das nuvens
e nós na penumbra rasa do chão
apressados com os dias
porque tolos são os outros
nós não
Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011
Brevemente, nas livrarias...
Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Sementes do fogo

As sementes do fogo, luzes do espírito
que Prometeu roubou,
poderia eu tê-las furtado no fervilhar deste alvoroço de pensamentos.
E que Zeus me punisse:
que soltasse feras, de rapina e doutras qualidades;
que me enredasse em correntes ou simples freios;
que atasse por inteiro a linhagem dos Titãs...
Que não é possível saber de mais!!!
Terça-feira, 7 de Junho de 2011
No escaparate
no escaparate
tenho os evangelhos longe dos autos de fé
arrumei-os com os catecismos
justamente nas prateleiras mais castas
vigilantes
por cima
a patrística e por baixo a escolástica
em frente
os delírios apócrifos e as canonizações alquímicas
Foto: LNM/2008 - Biblioteca de Alexandria
Quinta-feira, 5 de Maio de 2011
Quem sabe?

Quem sabe se a essência da verdade não está
onde todo o desconhecimento se funde?
Lá, onde a primeira causa e o eterno retorno conversam.
Aristóteles e Nitzsche, ambos de joelhos e de lupa na mão,
procurando,
procurando,
procurando...
Foto: LNM / 2009 - Rio Jordão - Israel
Segunda-feira, 21 de Março de 2011
Na floresta

misterioso é o tempo
das águas matinais e do sol tardio
misterioso é o tempo de março
insondável o silêncio
em que vivem
no mês de todos os recomeços
calam-se indiferentes
ao que pergunto
ao que respondo
mas pressinto que me sentem
pela sombra rasa de afectos
Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
Onde?

pensava eu
que entre mim e a eternidade havia tudo o que vejo
e não vejo
querendo-a
pensava eu
tinha de pisar um carreiro estreito e muito longo
para chegar a um ponto que via donde partia
mas que a cada passo meu
dava ele um passo certo comigo e ficava
mais à frente no caminho
tão perto como antes
e eu ainda ali no sitio da partida
pensava eu
que entre mim e a eternidade estaria deus
aquele deus que me ensinaram em criança
um velho barbudo e severo
tão antigo quanto o testamento
vestido de branco e sentado num sólio de nuvens
brancas da cor da luz
porque as negras adivinhavam outros tempos
às vezes
pensava eu
que o carreiro que imaginava subia
até à eternidade por uma montanha sem descida
e tinha certo que acabaria acima das nuvens
onde estaria sentado por perto o deus dos homens
luminoso
rutilante
incandescente
mas com a liberdade com que nasci e com o tempo
que me foi dado para chegar ao que vejo e não vejo
sei hoje que entre mim e a eternidade não há mais nada
estou no caminho da montanha
e toda a eternidade que eu possa querer
não está noutro sitio que não seja dentro de mim
e os passos que eu dou transportam a eternidade comigo
porque a partida e a chegada se fecham em círculo
são atributo do que é divino
e tributo dele a todos os homens
procura
procura e encontrarás
mas onde?
em ti porque és a segunda pessoa
que na gramática dos homens será com quem falas
mas na gramática divina é o filho que teima em não ouvir
porque deixou de saber falar consigo mesmo
e perdeu-se
pensava eu que a eternidade era assim longínqua
como no fim do céu
quando afinal está aqui
na terra
e entre mim e ela estou eu
Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011
Apascento em silêncio
apascento em silêncio cada uma das letras
apedrejo o alfabeto
e o aparo dos meus dedos
cachorro
trá-lo de regresso arrumado em palavras
o silêncio é a escuridão do som
o branco é a sombra da escrita
Foto: Eduardo Marques - Praia de Santa Cruz (c)
Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010
Natal

escrevo poemas de natal há muitos anos
quando ainda não sabia escrever
eram as palavras
simples e ditas devagarinho
escritas sem letras desenhadas
mas eram poemas
e quando ainda não sabia dizê-los
era o calor da minha mãe que os dizia
por mim
Foto - Esperança tirada em Sagres - LNMarques (02/12/2010) (c)
Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010
Há

há no escuro
uma luz que vem de dentro e nos conhece
que nos conduz e destina
que nos põe no centro e nos dá tudo
o que acontece
Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
Rosas

no contorno das pétalas há palavras
são de veludo
doces como as rosas
Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Cores?

morro quando encerro os olhos
e nasço de cada vez que os abro
cores?
vejo-as sempre
sempre pela primeira vez
Foto: LNM - Mercado do Bairro Copta - Cairo/Abril-2008
Quinta-feira, 1 de Julho de 2010
O tecto

Olho para o tecto e vejo
o limite
das coisas visíveis.
Depois dele
sei que as estrelas brilham.
Mas saber não basta.
Foto : LNM - Açores/ Ilha do Pico- Julho de 2009
Terça-feira, 1 de Junho de 2010
Os sonhos dos outros
antes de nascer pediram-me que guardasse
os sonhos que encontrasse por aí
fosse onde fosse
vás onde vás disseram-me
a espuma do sono
os sonhos
hás-de à beira margem descobri-los
são núvens leves a pairar como as estrelas suspensas
no ar ao redor de todas as vidas
que fosse guardião dos sonhos dos outros
e também dos meus
todos os sonhos à tua guarda
e também os teus
e o segredo caiu-me dentro até ao dia em que nasci
e o trouxe comigo à claridade dos dias
quando os vi sem culpa nem medo
porque nasci raso de tudo
e de nada
recolho desde então a espuma das árvores
quando elas dormem no perfume das flores
e confiam nas sementes que dão
também junto as noites das aves que voam
e dos bichos que andam na terra e nadam no mar
quando vão para os paraísos que vêem enquanto dormem
e lá ficam porque é bom lá estar mesmo a dormir
mas é no que os homens sonham e as mulheres também
que eu me deito com Morfeu em lençóis feitos
do linho das vozes que escuto no cais
é com os sonhos dos outros que eu sonho
porque vás onde vás disseram-me
não há nada que seja só teu
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
Os dois
não há nada
nem a luz de qualquer farol
nem o nevoeiro
nem a escuridão
nem forças por mais desumanas imaginadas
não há nada
que detenha os murmúrios que em surdina
guardamos como devem ser guardadas as palavras
que à bolina soletramos na solidão de estarmos os dois
não há nada
nada que nos demore no tempo que ambos sabemos que não há
nada que nos esconda a vontade que temos
não há nada
Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Livrarias
Ando há muito tempo numa correria
pelas livrarias da minha cidade.
Às bibliotecas digo que não vou tanto.
Porque nos livros deposito afectos
que não se compadecem com os propósitos
dos depósitos.
Gosto mais de tê-los em casa
alinhados à mão e à vista,
no propósito egoísta de vê-los ali
presentes,
disponíveis,
carentes e de olho em mim.
É curioso como ando sempre expectante e atento
a todas as letras, de todos autores
que falam ao mundo do amor sentem por ele,
da ternura que entornam sobre os outros,
da alegria da via que seguem
e da vida.
Mas confesso que nada, mesmo nada, do que leio
é aquilo que sempre sinto cá por dentro:
Quando vejo o mundo com os meus olhos;
quando escuto os outros com o peito
e o meu coração bate por eles.
Nas livrarias e bibliotecas há livros
que dissertam sobre a qualidade dos amores que há,
sobre a eternidade das paixões verdadeiras
e a certeza que existe para além das verdades.
E cartilhas?
Muitas… ! Até uma cartilha da ternura eu já vi.
Como se o ar quente que a proximidade me dá
me pudesse ser ensinado por outros,
ou estivesse para além de mim.
Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Não arrisco

tão perto andamos da verdade
meu irmão
que não arrisco a primavera
quando acordo e ainda com sono
abro os olhos e não vejo o desenho nítido
de um desejo vão
tão perto
minha irmã
que não arrisco também o outono
quando adormeço e me entrego
seguro de que verei ao largo tudo o que vejo certo
mesmo no escuro
Foto: Colunas - Templo de Karnak - Março/08 - LNM
Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
Acima das colinas
talvez um dia a pureza incontida
hoje, quase sem voz, esteja à esquina.
tão perto de cada um de nós
que um sorriso contente nos trará,
mais uma vez,
os meninos que fomos ontem, quando
um dia era só um dia,
de cada vez.
talvez um dia, quando a noite estiver para nascer,
o frio escuro ganhe calor e claridade
e o estio maduro possa invadir os telhados ,
todas as portas
e janelas da cidade.
talvez um dia - quem sabe? - também Lisboa desça à rua.
à noite,
de madrugada,
de manhãzinha…
e suba à minha beira para comigo,
acima das colinas, bem acima dos beirais,
ver-se cidade inteira.
nada mais.
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
Não parto
quis-te perfume e primavera
quis-te canção e quis-te mar
quero o tempo
sempre o futuro sem espera
o antes e o depois de uma vez
sem esperar
mas não parto daqui para o teu corpo
sem que o meu me diga que é o tempo da partida
nem ficarei depois aí em festa
na certa incerteza que da minha passagem
não restará rio
não restará margem
que me deixe daí partir e daí chegar
Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Jerusalém

Ó Jerusalém !
há uma luz que te guia para lá das luzes
e uma só palavra te diz como deves ser dita:
Eternidade
___
Foto: Jerusalém/Monte do Templo/ Domo da Rocha (mesquita) vistas do Monte das Oliveiras (do interior da Igreja Dominus Flevit -O Senhor Chorou) - Foto LNMarques - 09/08/09
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Todos os rios

sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia
confesso que não vi cada um dos grãos de areia
nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro
sentei-me ali
estava como sempre estou em todas as praias
mais no sal que na terra
mais na água que no sol
quando olhei para longe e vi na linha
da fronteira celeste do mar
como se estivessem perto de mim
todos os rios do mundo
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Pois que o Homem

Pois que o Homem tem este entendimento
e se vê partido desde sempre, assim entre dois mundos,
que sejam suas as artes visíveis que atura e levanta.
E também as outras que afluem desde a noite dos tempos:
Quando ele era tão só ele mesmo sem vaidade nem corpo aqui.
Tão só a paz quieta que via ao fundo quando abalava
e depois guardava chamando sua, no Coração…
Quarta-feira, 11 de Março de 2009
A Beleza
dizem-me
que a beleza de tudo quanto há
não existe por si
mas nos olhos com que a vejo
da beleza natural e da arte
dizem-me que a diferença vai do que é livre
ao que não é
e que a arte só existe porque tenho
a estética como necessidade
não sei por que para tudo
tem que haver uma explicação
nunca soube
nem por que não é a beleza só isso
acrescentam também que é a proporção das formas
do que tem forma
e a proporção da efemeridade
do que é efémero
e ao proporcionómetro
dizem nada
que pode ser uma questão do tempo e da moda
que a beleza retratada na história ainda é beleza
que é intemporal
que é o bem e não o mal
dizem-me
dizem-me
didem-me
deixá-los dizer
Domingo, 11 de Janeiro de 2009
A folha branca

gosto de escrever com poucas palavras
quase com o silêncio
quando souberes de mim mesmo que não escreva
deixarei calado o poema
a folha branca
Foto-Biblioteca de Alexandria-Egipto Mar/08/LNM
Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008
Natal
ando intranquilo
bem me deito e encosto o corpo às nuvens
da minha cama de onde parto à noite
todas as noites daqui para a terra que sempre vi
suspensa na minha vontade desde criança
e onde o Natal acontecia doce
dia a dia
ando intranquilo
sempre que me levanto corro das núvens ao chão
lavo com água o corpo
só o corpo
e frente ao espelho pergunto a todos quantos vejo
quem não viu uma terra assim?
quem?
Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
Dias frios
são frios os dias quentes
se resistes
cultivemos então as horas
enquanto encostas as palavras que dizes
ao rigor que escrevemos nos lábios
Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
Entra...
recolhe os sentidos que puderes recolher
e descansa de tudo
de tudo
dos olhos e sabores
dos odores e da pele
da arte fugaz das musas
descansa
deixa-te no pousio
e entra
Sábado, 4 de Outubro de 2008
O Dever
quando fui carteiro punha as mãos
assim ao de leve nas cartas
e via lá dentro o açúcar das palavras doces
e a tristeza das letras desencontradas e tristes
com um sorriso aberto entregava umas
e as outras o dever dizia-me que as entregasse
quando fui soldado com soldados irmãos
entre mim e eles ouvia o clarim
que sempre me dizia que as alegrias
chegariam com o carteiro que também fui
e as tristezas todas ali no campo onde
poucos gritavam a sua condição de homens
enquanto outros me diziam saber por que eram soldados
com um sorriso aberto recebia uns
e aos outros o dever mandava-me que lhes desse tão só
a minha Paz
Domingo, 7 de Setembro de 2008
Desde que na água

depois do vento vieram as ondas e os adoradores do sol
levaram-no para longe da praia
para onde a água caía quando o mundo
ainda não era redondo e a terra estava no centro de tudo
e perguntaram-lhe qual o lugar onde tudo começou
respondeu que em todos
desde que na água
Egipto/Abril 08 - Algures a caminho de Nag Hammadi - Foto LNM
Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
A Palavra

lá fora o deserto
cá dentro os frutos do Homem
a Palavra
nua
singela
Foto:Celebração Copta - Mosteiro S. Bishoy/Sacristia - Cairo/Egipto (Março08) - LNM
Domingo, 27 de Julho de 2008
É aqui
era esta a Luz que eu pocurava...
encontrei-a longe,
longe das multidões.
onde as Rosas são a claridade perfeita.
e o azul está onde deve estar...
no infinito.
acima dos homens.
Na casa d'Ele.
Foto:Mosteiro Copta de S. Bishoy (Sec IV)-Cairo/Egipto(Março08)-LNM
Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Coisas simples
se eu tivesse o segredo das coisas mais simples
ter-me-ías dado à luz
mãe
como aquela árvore maestosa
que a chuva fez crescer comigo
eu teria crescido com ela e tú
ao longe terias visto o teu menino diferente
em cada estação e a nascer sempre
em março todos os anos
todos
ah!
quantas vezes serias minha mãe?
e quantas vezes te chamaria quando te chamasse?
por que nome gritaria eu nas noites frias
quando o frio caisse rigoroso?
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
Flôr de anis
tão perto foste minha estrelada
e austera flôr de anis
tão certo assim tinha errante e afastada
a espera que ao longe cria sem querer
que além mas não perdidos via também
sinceros os teus olhos e o teu mosto perto de mim
no teu rosto de mulher
Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
Natal
diz-me o que não dizes
em silêncio
quando nem as palavras nascem
fala-me dele
da escuridão do som e do escuro das noites escuras
e também da luz
da noite grande luminosa
diz-me
diz-me que dezembro só é frio
quando queremos que seja frio
Domingo, 28 de Outubro de 2007
A minha varanda
é da minha varanda que vejo tudo
assim tão pequeno e raso
lá baixo
não me lembro se foi nos livros que li
que a distância faz as coisas pequenas ao ponto
de não as vermos mesmo quando lá estão
sempre
presumo que é na minha varanda então
que nasce a distância dos caminhos
a dimensão das horas
o tamanho das searas maduras e o tempo
que leva no verão a ceifa
Sábado, 6 de Outubro de 2007
Admirável mistério
o que tem de admirável o mundo
não é tanto o que eu não sei do mundo
mas o que eu não sei de mim
o que faz dele este admirável mistério
não é tanto ele
mas eu
porque sem mim nada seria surpreendente
nem misterioso
porque os mistérios do mundo existem
tão só porque existo
e me surpreendo
Domingo, 23 de Setembro de 2007
A leste do mar tão largo
e eu faço adeus daqui
do lado de cá
da margem a leste do mar tão largo
e tu perguntas
porque são de pedra os castelos
e frágeis
refulgentes as rosas estampadas nos vitrais
seriam
de areia os castelos
e as rosas sempre mães
se as pátrias fossem praias e a história contos
só de embalar
Domingo, 2 de Setembro de 2007
Dois dedos de silêncio
conheço os que saem de viagem
ao fim da tarde
de visita ao jardim de todos
umas vezes passeiam-se outras a estimação
que têm pelos animais que guardam à trela
em casa
onde dizem que moram
esperam as horas sentados ao redor das fontes
feitas para estarem ali
onde alguém quis
quase sempre conversam uns com os outros
sobre tudo o que é importante para cada um
o tempo que fez naquele dia e que fará no seguinte
as insónias do calor da noite passada
a importância das bagatelas
dois dedos de conversa
e regressam a casa como regressarão ao jardim
no dia seguinte
e conheço os que entram de viagem
que não saem que se veja mas que vão sempre
a fontes onde só eles sabem ir
e a pomares onde nunca chove porque chover é triste
dois dedos de silêncio a eternidade
e regressam do coração
regressam a si donde nunca saíram
Segunda-feira, 30 de Julho de 2007
Noutras circunstâncias
1 . Noutras circunstâncias seria padre:
condutor de almas tresmalhadas,
distribuindo penitências pelos pecadores confessos.
2 . Noutras circunstâncias talvez fosse o Cristo:
tresmalhando almas, desarranjando certezas,
dando penitências aos bem comportados.
Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Antes e depois
não sei porquê
não sei mesmo
mas sempre vi o tempo numa circunferência
em que o futuro está ali
antes do passado e depois do presente
e se na linha está o tempo tenho do círculo
a ideia do mundo que dentro da fronteira
olha para cada um dos seus pontos
e em todos e cada um encontra
o que está depois do antes
e antes do depois
o presente
também não sei porquê
mas não consigo imaginar o que é
e o que vai para além do traço
imagino que seja maior
mas não imagino o que possa ser
o futuro pode mesmo estar à mão de um passo
cada vez mais pequeno porque o passado
cresce
cresce sempre
então
ou a circunferência alarga e há tempo que é criado
do nada
ou o passado invade o futuro
e eu não sei onde pôr o presente
é certo que tudo tem só a importância
que lhe damos
e pode até não ser importante para outros
a ideia que eu faço do tempo
e também do mundo
mas porque tudo tem tão só a importância
que tem
sem tempo não tenho o que dizer
e não sei se condeno o poema ou se ele
verdadeiramente nasce
Domingo, 10 de Junho de 2007
És tu
pastor do Sol
ferreiro dos arados da Terra
és tu
é o teu perfil que leio
no contorno geométrico do pólen
sempre que anuncias os artesãos
da primavera
Terça-feira, 15 de Maio de 2007
Sementes
é verdade que ninguém morre
nunca
regressamos apenas e ficamos
pastores
e as tuas e as minhas mãos sementes
que o cio da terra nos pede
Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
Desejo
há-de sorrir o trevo
sempre que um desejo se levanta
no corpo de quem passa
hão-de as tentações
ao sol
como as campainhas ondular
incandescências
Sexta-feira, 13 de Abril de 2007
Como podem?
só estou perto de tudo quando amanhece
perto de tudo mesmo que não queira
e então
também escrevo cartas de amor
poemas brancos sem linhas que me levem
onde todos vão
não fecho os olhos por acaso
só porque estou e não quero ir
o acaso não tem lugar aqui
nunca teve lugar onde estamos
nunca esteve para estar connosco
e dizem que os rumos de quem quer
são ligeiros
sempre ligeiros
como podem?
Domingo, 8 de Abril de 2007
É aqui
é aqui que venho
quando me procuro
o cenário que vejo primeiro é branco
e só depois
o mar
a terra
o mundo
como argila nas minhas mãos
Quarta-feira, 21 de Março de 2007
Deixo
deixo em testamento a tua sombra
e só ela
aos que virem na penumbra dos teus ramos
o abrigo
aos outros o Sol
que dorme enquanto durmo
no além submerso que avisto
e aos restantes o resto
que é tudo o que diz o poema
no dia do achamento
(No dia da árvore, do sono e da poesia)
Sexta-feira, 2 de Março de 2007
Dito assim
dito assim parece simples
porque as palavras se despem e humildes
vestem as frases que escrevo no poema
as horas que escrevo na cidade
ainda hoje não sei porque é preciso
explicar tudo
não sei porque vejo os dias quase todos os dias
sentados na falésia à minha espera
acossados pelo fascínio do sal das ondas
iludidos
iludidos
sabes?
nunca me perdi na rua como no tempo
nunca me perdi no tempo como nos instantes
e nunca o acaso me olhou da praia e desejou
que eu fosse além do destino profundo da espuma
leve
leve
(Republicação)
Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
Dos amores impossíveis
tranquila, muito serena e a recato estava
doutros animais a redonda e gentil galinha.
e seu dono que ao lado do galinheiro tinha
animais de pelo, reunidos em manada,
tranquilamente seu espirito mantinha
e, dia fora, outros rebanhos guardava.
pertinho da capoeira, à solta quase sempre,
um coelhinho branco de pelo e de orelhas,
farto de privar com três dúzias de coelhas
caiu de amores pela galinha, perdidamente.
e num daqueles dias mornos de primavera
em que os corpos pedem festa e muito calor,
de penas e bico ao vento estava a galinha
quando afoito e veloz lhe saltou asinha
o coelho tresloucado, que nem uma fera:
-Óh loucura! Óh tardio amor, insano desejo!
vinte dias depois após noite de cacarejo
sem dor, em boa hora, sem mágoa nem alaridos,
deu a galinha à luz dez ovos de Páscoa, coloridos.
(Aos meus amigos foliões de Torres Vedras)
Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
Vénus
nas marés imersas no perpétuo
transito de Vénus
sentes a bombordo na espuma
o rosto incompleto da praia
imagina só
imagina se no perfil do escuro incendiado
todas as estrelas fossem da manhã
Domingo, 7 de Janeiro de 2007
Chá
I
e i a as a o ai a á ua e e e
e o a o o u e ei a a ai
a o ao e
e u e a a e a a a o o o as o e a
ã
é o á e e i e ue a eu e
a e i o á e a a e o o e a
i ia
II
r t r v s s v g s d g f rv nt
n v p r l m d x v s c r
s c ns nts
f m g v p l c s d r d s pr m ss s
v s
ch d g ng br q q c
m s pr f r ch d s s d b rb l t s
d z s
III
retiravas as vogais da água fervente
e no vapor do lume deixavas cair
as consoantes
e fumegava pela casa o odor das promessas
vãs
é o chá de gengibre que aquece
mas prefiro chá de asas de borboletas
dizias
Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007
Recomeço
em cada recomeço lá estão
as tecedeiras
os fios
e nós ali
sentados a ver como se faz
calor
e é o linho virgem que revemos nos teares
que Janus tece
Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
Todo o ano
durante todo o ano colecciono
palavras, na sacola dos meus silêncios.
e no dia da noite mais longa
sento-me cá fora, como hoje,
e por esta altura, só por esta,
corro no escuro, desato aos gritos e espero
que outro dia chegue
Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Preto no branco
ontem
parei de um lado da rua e vi-me no outro
e de ambos os lados fiquei
na esperança que a esperança caísse
eu sei que nem sempre me vejo assim
de cá e de lá separado pelo mundo
nos dois lados do mundo e separado por ele
sei que nem sempre me reparto como escrevo
porque nem sempre a tinta é negra e o papel assim
porque o preto no branco e o branco no preto
podem ser o caminho das metades
mas não do meio
Domingo, 5 de Novembro de 2006
Só eu sei
sento-me à soleira do teu corpo
quieto na vontade
e meigo nas ambições
encosto-me ao berço do tua voz
ao teu peito
de murmúrios tenros
e só eu sei
só eu sei
como adormeço
(Republicação)
Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
No poente
eles descem
mas tu vais dizendo
que os mares andam rios acima
e acabam onde morrem as nascentes
lá longe
no poente dos olhos de água
Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006
Basta-me!
pudera eu despir-me aqui perante vós
que mesmo nu continuaria adornado
desta minha condição humana:
pedra e força bruta.
porque as faces mesmo lisas não deixam de ser rudes,
nem as arestas por mais perfeitas deixam de ser ríspidas.
pudera eu vir aqui fazer-vos
a critica da convicção pura
e falar-vos de tudo quanto sinto mas não digo.
pudera eu vir aqui expor-vos os argumentos
das razões que não sei se tenho
e de todas as opiniões que pari desde que me entendo.
pudera eu ser um homem sempre justo…
que as outras imperfeições carregá-las-ia de bom grado
no saco da minha consciência.
pudera eu dizer tudo isto e ser entendido,
e não estaria aqui convosco.
mas quis a fortuna que o Grande Arquitecto
permitisse que, no prefácio da narração dos tempos,
os homens nascessem brotando do chão.
quis Ele que na Idade do Ouro o Sopro Criador
se confundisse com as criaturas,
que o Homem fosse o guardião das cores,
o zelador de todos os ocres e pigmentos.
quis Ele dar ao Homem a sede autentica mais a divina figura.
também a ousadia, fundamento da Liberdade.
quis ainda a sorte que Prometeu nos desse o lume divino,
e que a caixa de Pandora, senhora de todos os dons,
se abrisse entornando contratempos.
desde então as ideias são como alaridos e esgrimas
e as frases soam a desconfianças bastardas.
rebuscamos no campanário das vozes e das prosas de Babel,
a Palavra que um dia dará forma à doutrina do entendimento humano.
catamos na multidão dos vocabulários,
nos mistérios dos catecismos,
no frágil talento dos nossos rudes critérios:
o Sopro Divino, Grande Alento, brasas de Luz a partir do nada;
a Harmonia das Esferas, caroço das perfeições possíveis;
os pedaços, na miragem de chegar ao Todo colando as partes.
dói olhar para um homem, vê-lo só a ele, e nem sequer todo...
dói procurar nas Borras da Fundição, olhos que vejam como os nossos...
dói encostar o ouvido ao búzio e não adivinhar o sabor do sal...
dói tanto...
mas no dia em que o céu se partir,
as tábuas da mecânica do mundo hão de peregrinar.
nesse dia estarei convosco, para guardá-las.
Basta-me!
(Republicação)
Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
Não sou de cá...
não sou de cá, dizes-me tu.
não és.
não és mas sabes
que todos os rios conhecidos moram aqui...
onde?
aqui. na fonte dos caminhos.
no teu peito...
Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006
Então sim
no pousio das incertezas
na cegueira dos murmúrios
então sim
o silêncio
(Boas férias para todos. Voltarei no final de Agosto...)
Domingo, 23 de Julho de 2006
São nódoas
ouço-os
e sempre te digo que os tambores
quando rufam assim são nódoas
não pode ser este o acaso das tuas mãos
não podes cegar a virgindade das bandeiras assim
com este sono intranquilo
Sexta-feira, 7 de Julho de 2006
Rosas maduras
canto Saturno mais os grãos que deitou
ao chão do Olimpo e às brisas nocturnas
onde me deito
guardo a chama que Júpiter quis
das Ninfas que o guardaram por Cibele
das amas que lhe deram leite
e mel de rosas maduras
Segunda-feira, 26 de Junho de 2006
Irra!
a dramática lógica da batata
mata a isoiética parabólica
da pata que pariu a acústica
elíptica da fonética marata
a álica ceifada fica erecta
encafifada no ameno feno
no pó da mó da atafona
e o moleiro de quiriotecas
(que fazer farinha é ritual)
abre portas frestas e janelas
e de malga de intrita na mão
assim grita
irra!
Irra!
que entre catacáustica luz
que ilumine a dramática lógica
da batata que pariu a catacústica
de que tanto se fala
e ala
ala que se faz tarde
irra!
Sexta-feira, 16 de Junho de 2006
Demora
não te digo hoje
não te digo amanhã porque do tempo
tenho a leitura das palavras
cada letra uma espiga só uma
e em cada poema a demora das searas
Segunda-feira, 5 de Junho de 2006
Juno
colho a graça das perfeições nuas
porque as formas são apenas formas
na cal dos muros
e na penumbra da verdura que deles cai
está Juno deitada na brancura de todas as cores
que o branco tem
Segunda-feira, 22 de Maio de 2006
Há cidades onde
sempre que a noite se cala
quando cresce o sol
e a lua desce
há cidades onde
os cães passeiam os donos
e correm do futuro para o passado
as águas que o tempo dá
Quinta-feira, 11 de Maio de 2006
Incenso
não me peças
de regresso o sândalo
não me queiras
âmbar
de regresso ao leito
gosto de trazer os rios
e o incenso
da rosa
Segunda-feira, 1 de Maio de 2006
Maio
em que outro mês caberia
um dia só
do trabalho?
e do silêncio?
que outra lua seria
o branco de todas as noivas?
que outras cores se não todas
para maio
das papoilas?
de que outra mãe serias filho
Hermes?
Segunda-feira, 17 de Abril de 2006
Às vezes
às vezes pergunto ao espelho
o que está depois dele
tudo
e ninguém que não esteja comigo aqui
neste lado como no outro
em cima
como em baixo
Quarta-feira, 5 de Abril de 2006
Simplesmente...
escrevo na fronteira marítima do céu
na fronteira celeste do mar
escrevo no fio dos horizontes
nas linhas terminais que avisto
nos caminhos intermináveis que encontro
simplesmente escrevo
escrevo simplesmente
(Ao meu amigo Carlos Martins)
Terça-feira, 28 de Março de 2006
Na floresta
misterioso é o tempo
das águas matinais e do sol tardio
misterioso é o tempo de março
insondável o silêncio
em que vivem
no mês de todos os recomeços
calam-se indiferentes
ao que pergunto
ao que respondo
mas pressinto que me sentem
pela sombra rasa de afectos
Terça-feira, 21 de Março de 2006
SONHO GENUINO
os meus dias eram todos os mil filhos do Sono
e as minhas horas irrompiam aladas
como o vento irrompeu do odre
enquanto o herói se entregava a Morfeu
não sei qual dos companheiros enxotou o destino
quando desapertou o cordel das ventanias
mas ainda hoje as vejo errarem por direcções imprecisas
sempre contrárias ao sonho genuíno de Ulisses
Domingo, 12 de Março de 2006
De nada
aqui
onde o cheiro do alecrim
não chega à resina livre das estevas
sentado no lugar de todas as imperfeições
em março mês dos equinócios que reconheço
tenho a esperança dos amores perfeitos
e quero respirar o perfume dos lírios
a eternidade
aqui
onde cultivo o que não vejo disseram-me
que os meus sonhos existem por minha causa
e que no jardim onde semeio a vontade
os canteiros não são margens de nada
de nada
Quarta-feira, 1 de Março de 2006
O banho
é um fio ligeiro
uma linha cristalina que exala calor e espuma
que transparecem no ar
é o feitiço dos rios que em casa me chama
os dedos passam leves
quase escrevem na humidade
assim me dispo
e assim despido entro devagar
e docemente a água me veste
Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006
Animais de estimação
tenho um cão velho e louco
louco de paixão por gatas
bem lhe digo que no mundo
cada um deve estar no seu justo lugar
os cães no mundo dos cães
as gatas no mundo dos gatos
bem lhe digo e quando lhe falo
olha-me com aquele olhar doce que sabe pôr
e vai miando as suas mágoas de cão
porque as gatas querem gatos
e cães não
tive antes deste cachorro
uma gata persa exuberante
olhos azuis
pêlo cinza bem macio
fora eu gato seria ela a minha gata
fosse eu cão e seria dela
seria minha a sua pata
bem lhe dizia que no mundo
as almas gémeas das gatas são gatos
e das cadelas os cães
olhava-me com aquele olhar triste que sabia pôr
e gania as suas mágoas de gata
porque os cães se ficavam pelas cadelas
e por ela não
...
tenho um cão velho e louco
tive uma gata persa exuberante
e hei de ter um periquito
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
Escriba
olharás
olharás sempre a mão do escriba
o movimento imperceptível dos seus dedos
como da primeira vez
ele desenha
desenha-te as palavras e depois delas as frases
o contorno das penumbras que ditas
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006
Que te digo?
se me falas da efabulação dos dias
se os escreves em páginas verdes
em folhas que nunca vês maduras
se me dizes que são já tardias
as cores
a tinta das tardes puras
que sempre trago
que sempre levas e não dispensas
que te digo?
ah! se as estações fossem todas só uma
aquela em que o fresco halo da manhã
luminoso se desata
Também no Incomunidade
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006
Utopias
fermentos
utopias
à noite
quando a humidade condensa cristalina
e no ar respiram escuras
as ausências do verão
agora
neste mês em que Janus transpira
o tempo ainda verde e o vinho
ainda tão novo
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006
Mozart - 250 anos
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
No escaparate
no escaparate
tenho os evangelhos longe dos autos de fé
arrumei-os com os catecismos
justamente nas prateleiras mais castas
vigilantes
por cima a patrística e por baixo a escolástica
em frente os delírios apócrifos
e as canonizações alquímicas
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2006
Escritas vadias
sim
só revelo as palavras se chegam
ao planalto dos papeis
como as barcaças que seguem
ao sabor das Tágides
porque as escritas vadias
são revelações do corpo-chão
escrevemos
e destapamos a Luz
Domingo, 8 de Janeiro de 2006
Caldo puro
em menino
disseram-me que ser pequeno era condição
da idade
e que um dia seria grande
se fosse
o meu tamanho era o que era
como agora é
e ao almoço na mesa havia sempre pão escuro
quase fatias de pão triste
e davam-me sopa de caldo puro
onde eu me via como ao espelho
menino
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005
Quente
não quero as nuvens
não quero a chuva
nem o vento
nem o frio
dêem-me o céu
só o céu
deixem-me no azul
assim tranquilo
assim doce
quente
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2005
Dom das lágrimas
que noite é esta que me acontece
cá dentro?
que ânimo é este que me entristece
o lume?
o alento?
que doçura me dás que não distingo
o dom das lágrimas
da tristeza?
tranquila e doce
em que adormeço?
que frio é este que me acalma
e consola?
que paz é esta que reconheço
no açúcar louro da madrugada?
no perfume do orvalho?
na geada?
que paz é esta?
Domingo, 11 de Dezembro de 2005
Tão cedo
dizem que a eternidade é longínqua
que está depois do fim
além
dizem que nem tudo começou no princípio
mas antes disso
primeiro
e eu
que tão próximo não vejo
o que só a distância mostra
desembarco antes de chegar
tão cedo
que nem mesmo o sono me leva
onde me deixas de regresso
Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005
Artífices
na minha rua
todas as pedras são como se fossem do rio
pelas margens
quando de olhos na terra regresso à noite
ao calor
correm à minha frente os artífices
juntam-se em oficinas de perfeição
e devagar
com todo o vagar que a água lhes dá
trabalham os vértices até aos seixos
com alfaias de tempo
de chuva
de vento
de horas
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005
Construam-me o corpo
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005
Intocado
existe
intocado pelos sentidos um mundo
latente
que permanece ao meu lado
quando o esqueço
que me guarda o silêncio
se canto
que me pede que o sonhe
sempre
Terça-feira, 15 de Novembro de 2005
Harmonices Mundi
Corre melodia corre
em busca da harmonia perdida.
Busca que busca
em águas turvas a doce cantiga,
o baile vítreo,
o rodopio da água límpida.
Corre que busca.
Busca que busca
o ar, o mar e a vida.
O batuque, os sons, os tons da verde cor antiga.
Corre melodia busca,
busca a perdida harmonia.
Que busca busca
no baile as turvas águas, a vítreo doce cantiga
da água em rodopio, límpida.
Que busca busca,
corre a cor da vida, o tom
da doce rosa
florida.
Terça-feira, 8 de Novembro de 2005
Isóbaras
isóbaras
desenham as linhas imperfeitas dos corpos
na sombra dos lençóis onde caímos
pertencem-nos
são nossas as rosas e o pão
do regaço dos milagres onde sempre nos deitámos
sim
são nossas as colinas
os relevos que na penumbra desejamos
de manhã
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005
Pode parecer
pode parecer redundante musicar um poema
porque a poesia é redundância musical
desnecessária e inofensiva
dispensável e escusada
mas não é
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
Pax
do ponto ao traço
da pedra à catedral
a distância
da terra chã
os traços
plano
aprumado
para que os esquadros da cruz se desenhem
e a Pax Profunda dos justos se leia
Domingo, 16 de Outubro de 2005
Dito assim
dito assim parece simples
porque as palavras se despem e humildes
vestem as frases que escrevo no poema
as horas que escrevo na cidade
ainda hoje não sei por que é preciso
explicar tudo
não sei por que vejo os dias quase todos os dias
sentados na falésia à minha espera
acossados pelo fascínio do sal das ondas
iludidos
iludidos
sabes?
nunca me perdi na rua como no tempo
nunca me perdi no tempo como nos instantes
e nunca o acaso me olhou da praia e desejou
que eu fosse alem do destino profundo da espuma
leve
leve
{aos amigos do CORAÇÃO - assim mesmo com maiúsculas - que vão tendo a paciência de me ler}
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005
Se espreitas
já é tarde para bater à porta
tarde de mais para entrar
cá de baixo
conduzo os meus olhos à janela
e vejo-a escura de luz
na parede branca
mas se espreitas pela moldura
os teus olhos acendem noite fora o teu retrato
que se debruça
Domingo, 2 de Outubro de 2005
Até que
deixa-me acordado no restolho macio
até que o outono encharque os torrões
e a chuva solte o cheiro da terra
assim o sabor da noite é mais sabor
Sábado, 24 de Setembro de 2005
Como sempre
navego em terra
seguindo faróis de marear
desenho no chão da tua pele os caminhos
e abalo assim
perdido como sempre
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005
Tanofárion/Fontanário
eta`1,dumsoerer
vcaosabcdfghim
esmenrnonate2i
rsemtnd~hinobcr
toe~aor.deusnar
noteq?eqraepr~i
sm,erdutod´eore
oearerneoa.ojoe
egea a´errsaietd
opres´tntcd.seria
a´~rrintsesaioae
aosaseasaers,ra
1
sedento
abri a torneira do fontanário.
saíram turbilhões de letras, sinais e números,
que me encharcaram as mãos de segredos.
2
a esperança do trigo é cair à terra,
a do pólen correr ao vento.
que desejo terão as letras?
Domingo, 11 de Setembro de 2005
Em segredo
nas tardes de primavera
com o sol morno e o céu rubro
eu corria para ti e sentava-me no degrau
à tua beira
encostava a cabeça ao teu peito
e tu sorrias e falavas-me
da imensa tristeza
da esperança dos desertos
dizias-me que não havia fogos despertos
que ardessem no peito mais do que os nossos
dizias-me que todos os mistérios eram só Um
e que nem toda chuva do céu
seria tão nossa como nós
e eu não falava nem dizia
ouvia tão só os sons escondidos em tudo
e em segredo construía cidades
com a tua voz
Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005
Ao acaso
I
se nos perdemos e deixamos
que a voz da nossa rua nos deslumbre
se vamos ao acaso nos passeios
e sentimos que alguém troça e ri de nós
é a cidade que navega ao sabor do rio
enquanto o rio se derrama pela foz
II
se nos perdemos e deixamos
que a voz da nossa rua nos deslumbre
se vamos ao acaso nos passeios
e sentimos que alguém troça e ri de nós
é Lisboa que navega ao sabor do Tejo
enquanto o Tejo se derrama pela foz
(Poema dedicado ao Café Lisboa - Link à direita)
Segunda-feira, 1 de Agosto de 2005
Havia tudo e ninguém
a Paz vivia serena e escura
e fez-se tudo
depois da Luz
debaixo da claridade
cresciam searas mas não se faziam as colheitas
havia tudo e ninguém
e o Arquitecto traçou em risco austero
todos os que viriam até ao fim dos tempos
e deu aos primeiros a Terra
na raiz cada um era príncipe de todos os reinos
as mãos coavam os feitos e os dias
e todos os idiomas eram vozes de uma Irmandade
missionária
até que chegaram os contadores de pomares
e de frutos alheios
(Para A.G. do DE GÉNESE - link à direita)
**Obrigado Gina Pedras pelo apoio. Com música sempre fica melhor!**
**Boas férias para todos. Vou estar de pousio até ao final do mês**
Quarta-feira, 27 de Julho de 2005
Aqui há tecto
quem me dera longe
no limite
quem me dera partir
para dentro de mim
aqui há tecto