Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Não quis aprender

 

escolinha.jpg

 

 

foram tantas as coisas que me quiseram ensinar

mas que eu não quis aprender!

 

quiseram que acreditasse que o mundo era como era

só por ter sido como foi.

e eu sentado com as pernas curtas, que nem chegavam ao chão,

repetindo para mim que não queria saber.

 

e do quadro negro, de dedo em riste,

gritavam-me que ser alguém era ser como os outros

porque os outros eram como deveriam ser.

 

e eu a não querer saber daquela sabedoria!

 

e da cátedra explicavam-me como se fazia a partir de um ponto

uma circunferência por natureza redonda,

mais um quadrilátero que até podia não ser quadrado.

 

e eu a não querer saber daquela geometria das figuras!

 

de pernas curtas que nem chegavam ao chão

tudo para mim era enfado, travessuras, imaginação.


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 21:05
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Do nada

C:\Users\Public\Pictures\imagesCA4IC2AD.jpg

criar é fazer emergir do nada!

       do escuro tirar a Luz.

       do silêncio harmonia.

       do inolente o aroma e do insípido o sabor.

 

é tirar da noite o dia e do carvão o lume.

         do cravo o odor.

         da tua pele perfume.


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 18:45
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Silêncio



poucas palavras terá o poema
e o papel, calado, estará perto do vazio.

flutua para além
das palavras impermanentes na candura da cal
e dos parágrafos ocultos dos olhos ímpios.

escrever poesia sem macular a cândida brancura das folhas
leva-nos a poemas rasos, limpos e quase puros.

onde lerás, se conseguires, os contornos e traços
do que é dito sem palavras.

e que titulo teria um poema assim?

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 16:55
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Quinta-feira, 12 de Junho de 2014

Sopro



Éolo sopra e oscilam
ao sopro os galhos que se inquietam e as penas
que se desarrumam.

não fosse eu quem sou!
e seria uma dessas aves do paraíso que no outro lado do mundo,
emplumadas como a serpente, se despenteiam
e balouçam ao desejo do Senhor dos Ventos.

para onde flutua a tua ilha, Éolo?
de que bronze é feito as suas muralhas?
porque nos afasta o teu sopro da vontade
e nos traz o destino de regresso?

Imagem daqui: http://fineartamerica.com/featured/tree-of-life-catherine-barry-hayes.html

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 18:14
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

É simples...



é simples permanecer
na frágil amurada de um porto e na vigia de um barco
que parte sem nunca chegar

por isso
moras na orla de tudo o que os teus olhos não te mostram
e passeias sem querer saber das perfeições escondidas

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 13:20
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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013

Alegrias



Alegrias são como olhos doces,
nos meus que ao redor ficam
presos em colo brando e seguro.

São o descanso futuro das preces
silentes, dóceis e leves,
lavradas na terra profunda.

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 16:21
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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

O tecto



são aves que te habitam

de asas abertas navegam-te por dentro
à bolina da tua pele

és o tecto do universo em que elas voam

pudessem elas ausentar-se
pudesses tú soltá-las
para além do tecto que és e dessa terra que te pertence

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 17:05
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Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

Cala-te



cala-te.
não fales, não digas a ninguém.

silencia o corpo das fomes que ele te expõe
e cala-te.

apaga dos teus olhos tudo aquilo que destapas
e da tua pele as fronteiras que ela não tem.
e espera .

espera que o teu coração te mostre
que Ele te guarda
também .

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 20:16
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Sexta-feira, 2 de Agosto de 2013

Não por isso



há um tempo em que vemos o dia diante de nós

não que o sol tenha nascido
ou as cotovias cantado a claridade das coisas visíveis

não por isso

mas porque há um tempo em que o sol escondido emerge
do que nos acontece e não acontece

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 17:56
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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Lux æterna



grande ampulheta
que escoa tudo o que é efémero
em contínuas provocações e profusas brigas musicais


forja lendária dos cedros
cadinho onde foi escrita a roda da fortuna
pira onde ardem as intrigas e os enredos fermentados
no avatar de todos os ofícios e castas de fingidores

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 15:39
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Quinta-feira, 14 de Março de 2013

Outro céu



não sei muito de astrolábios e calendários

mas creio que acima do céu há outro céu
onde as crianças colam estrelas com saliva doce

dos rebuçados

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 10:17
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Terça-feira, 5 de Março de 2013

Dança do Chão



No Olimpo
Cronos ergue o anel do tempo
e cerca os frutos de Úrano e Gaia.
Deméter desponta, verde, na demora das planícies!

E nas searas as espigas murmuram a dança do chão.

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 18:10
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Quem és?



tristeza, quem és?

por que invades as alegrias quando finalmente as tocamos
e nos trocas o sorriso autêntico pela melancolia
do taciturno Hades?

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

Nada que se possa ter




no rasto da praia ainda escuto as madrugadas

quando acordava no escuro e imaginava que alguém
á beira-mar acendia o sol para júbilo dos banhistas

eu fazia o carreiro todos os dias

então como agora os atalhos eram muitos
mas todos acabavam num areal interminável que eu pisava
ligeiro como as coisas mais leves a caminho da água
que me recebia dentro e me abrigava do calor

é por isso que não tenho parelhas e montes como diz a canção

cada um tem aquilo que julga que tem

eu o rasto da praia o caminho da água
mais a circunstância da vida
que pode até nem ser nada que se possa ter

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 16:50
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012

Cada frase




quando me sento à janela
uma claridade perfumada inunda
cada letra
cada palavra
cada frase
e toda a conversa que te escrevo

linha a linha
os meus dedos conversam contigo
sem que dês por isso
e nem mesmo o silêncio das tuas respostas
me fazem crer que no futuro
num dia incerto
guardarei de vez as palavras comigo

escriba serei sempre
mesmo que as linhas não se estendam como dantes
paralelas
equidistantes e negras nas folhas de papel

(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 16:48
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Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Há quanto tempo?



I

caminhei até à falésia
e sentei-me quando vi o mar aos meus pés.

entre mim e ele um precipício
feito de altura,
de areia
e de espuma leve e dispersa.

bem visto
não era água que eu via,
mas vida que desembarcava na praia
e ali ficava numa espera teimosa,
permanente.

II

há quanto tempo não vejo o horizonte?

já nem sei se permanece encostado ao céu,
ora acima
ora abaixo,
sempre ao sabor das marés e à cadência das lunações…

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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Onde nos leva o Eterno Presente?


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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Que te digo?



se me falas da efabulação dos dias
se os escreves em páginas verdes
em folhas que nunca vês maduras

se me dizes que são já tardias
as cores
a tinta das tardes puras
que sempre trago
que sempre levas e não dispensas

que te digo?

ah! se as estações fossem todas só uma
aquela em que o fresco halo da manhã
luminoso se desata

Imagem daqui: http://www.aswat.ma/fr/

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Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Deixo

 
 
deixo em testamento a tua sombra
e só ela
aos que virem na penumbra dos teus ramos
o abrigo
 
aos outros o Sol
que dorme enquanto durmo
no além submerso que avisto
 
e aos restantes o resto
que é tudo o que diz o poema
no dia do achamento
 
 
(no dia da poesia)

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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Sonho genuíno

 


os meus dias eram todos os mil filhos do Sono
e as minhas horas irrompiam aladas
como o vento irrompeu do odre
enquanto o herói se entregava a Morfeu

não sei qual dos companheiros enxotou o destino
quando desapertou o cordel das ventanias

mas ainda hoje as vejo errarem por direcções imprecisas
sempre contrárias ao sonho genuíno de Ulisses
 
 
 
(2006 -  No Dia Mundial do Sono)


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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Contraluz

 

 

quando atrás de ti se acende a claridade

os teus contornos sem tinta chegam negros

aos meus olhos nus

 

é assim que me detenho na lucidez das formas imaculadas

e que desenho com os dedos desprendidos a nudez

que se desliga quase perfumada das cores contidas

na contraluz

 

 


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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Há dias assim!

 

 _DSC0209.JPG

 

 

1 .

há dias assim!

 

ainda mareava no último sonho da noite

e estava e não estava onde gosto de estar,

quando convoquei o sol.

num esgar do corpo inteiro levantei-me

e, como no verão, quis-me refém das brasas.

 

2 .

há dias assim!

 

enquanto dormimos tecemos com fios  

e cordéis de horas quentes,

todas as manhãs que havemos de acordar.


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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Diz-me... (I)

 

O azul-negro da indumentária contrastava com o xaile vermelho vivo que à pressa lhe emprestaram para cantar aquele fado. Sempre gostara do improviso e a espontaneidade assaltava-a também nas ocasiões em que, espectadora dos fados dos outros, assistia tranquilamente aos trinados, lamentos e guitarradas dos curiosos, fadistas vadios como ela.

 

Tinha para essas ocasiões três ou quatro fados de cartilha, que ao longo dos anos foi apurando na garganta e nos sentimentos. Resistia sempre ao primeiro impulso, que sentia quando o pé direito, quase contra sua vontade, marcava a cadência possível, escondida mais nas palavras que na musica que escutava. E quando alguém perguntava se entre a assistência havia quem quisesse dar um ar da sua graça, ela saltava então para junto dos guitarristas e violas, dava-lhes duas ou três dicas mais o tom em que se sentia confortável e, depois de pedir um xaile emprestado e rompido o silêncio com a musica frágil dos instrumentos, fechava os olhos e soltava a voz umas vezes mais cristalina que outras, conforme o tempo, a disposição e o sentimento da altura.

 

Pouco lhe interessava se o fado vinha das lamentações dos escravos ou das profundezas dos desertos africanos. Bastava-lhe dar por si possuída até à profundeza da sua alma, por sonoridades que lhe saíam de dentro do peito e a arrepiavam de ponta a ponta como se apenas ela existisse enquanto cantava. Ficava então só consigo mesma e com a impressão de que era tão só para si mesma que entoava as sílabas que arrastava à procura do melhor tom para sair delas. E enquanto não rematava a frase arrastada, as guitarras e violas esperavam dela um sinal quase imperceptível que costumava dar com os dedos da mão direita enrolados no xaile. E ao sinal os instrumentos e ela continuavam o fado com mais determinação, até ao arrebatamento final. Era então que batia o pé direito com afinco para que a voz se lhe soltasse mais firme, como convinha em qualquer ponto final.

 

Depois dos aplausos que mesmo antes de terminar se soltaram pela sala e de vislumbrar, quase no escuro, espectadores que, de pé, gritavam de forma sentida a sua condição de fadista, ela agradeceu para a penumbra da sala, onde presumiu pelas velas acesas em cada mesa, estarem perto de uma centena pessoas a escutá-la. Depois do agradecimento olhou para o tecto da sala e agradeceu a quem a conduzia lá de cima. Era uma coisa muito sua, porque quando caía em si e se entregava toda ao fado, sentia sempre ali a mãozinha de alguém, que presumia serem os seus antepassados a conduzirem-lhe a voz.

 

Depois desculpou-se para não cantar mais, com a voz cansada pelo fumo que pairava no ar. Mas não era só do fumo…


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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

Os outros

 

 

é do outono

a chuva mansa que molha os tolos

o sorriso indefinido que nos surge nos lábios

quando molhados

 

porque tolos são os outros

e nós os sábios

 

é do outono

o sol rutilante acima das nuvens

e nós na penumbra rasa do chão

apressados com os dias

 

porque tolos são os outros

nós não


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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Brevemente, nas livrarias...


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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Sementes do fogo

 


As sementes do fogo, luzes do espírito
que Prometeu roubou,
poderia eu tê-las furtado no fervilhar deste alvoroço de pensamentos.


E que Zeus me punisse:
que soltasse feras, de rapina e doutras qualidades;
que me enredasse em correntes ou simples freios;
que atasse por inteiro a linhagem dos Titãs...

Que não é possível saber de mais!!!


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Terça-feira, 7 de Junho de 2011

No escaparate

 
 
no escaparate
tenho os evangelhos longe dos autos de fé

arrumei-os com os catecismos
justamente nas prateleiras mais castas

vigilantes

por cima
a patrística e por baixo a escolástica

em frente
os delírios apócrifos e as canonizações alquímicas
 
 
 
Foto: LNM/2008 - Biblioteca de Alexandria

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Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Quem sabe?

 

Quem sabe se a essência da verdade não está
onde todo o desconhecimento se funde?


Lá, onde a primeira causa e o eterno retorno conversam.
Aristóteles e Nitzsche, ambos de joelhos e de lupa na mão,
procurando,
procurando,
procurando...

 

 

Foto: LNM / 2009 - Rio Jordão - Israel


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Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Na floresta



misterioso é o tempo
das águas matinais e do sol tardio

misterioso é o tempo de março
insondável o silêncio
em que vivem
no mês de todos os recomeços

calam-se indiferentes
ao que pergunto
ao que respondo

mas pressinto que me sentem
pela sombra rasa de afectos

 

 

 


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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Onde?

céu-algarve.jpg

 

pensava eu

que entre mim e a eternidade havia tudo o que vejo

e não vejo

 

querendo-a

pensava eu

tinha de pisar um carreiro estreito e muito longo

para chegar a um ponto que via donde partia

mas que a cada passo meu

dava ele um passo certo comigo e ficava

mais à frente no caminho

tão perto como antes

 

e eu ainda ali no sitio da partida

 

pensava eu

que entre mim e a eternidade estaria deus

 

aquele deus que me ensinaram em criança

um velho barbudo e severo

tão antigo quanto o testamento

vestido de branco e sentado num sólio de nuvens

brancas da cor da luz

porque as negras adivinhavam outros tempos

 

às vezes

pensava eu

que  o carreiro que imaginava subia

até à eternidade por uma montanha sem descida

e tinha certo que acabaria acima das nuvens

onde estaria sentado por perto o deus dos homens

 

luminoso

rutilante

incandescente

 

mas com a liberdade com que nasci e com o tempo

que me foi dado para chegar  ao que vejo e não vejo

sei hoje que entre mim e a eternidade não há mais nada

 

estou no caminho da montanha

e toda a eternidade que eu possa querer

não está noutro sitio que não seja dentro de mim

 

e os passos que eu dou transportam a eternidade comigo

porque a partida e a chegada se fecham em círculo

são atributo do que é divino

e  tributo dele a todos os homens

 

procura

procura e encontrarás

 

mas onde?

 

em ti porque és a segunda pessoa

que na gramática dos homens será com quem falas

mas na gramática divina é o filho que teima em não ouvir

porque deixou de saber falar consigo mesmo

e perdeu-se

 

pensava eu que a eternidade era assim longínqua

como no fim do céu

quando afinal está aqui

na terra

e entre mim e ela estou eu


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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Apascento em silêncio



apascento em silêncio cada uma das letras

apedrejo o alfabeto
e o aparo dos meus dedos
cachorro
trá-lo de regresso arrumado em palavras

o silêncio é a escuridão do som
o branco é a sombra da escrita


Foto: Eduardo Marques - Praia de Santa Cruz (c)

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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Natal

 

escrevo poemas de natal há muitos anos

 

quando ainda não sabia escrever

eram as palavras

simples e ditas devagarinho

escritas sem letras desenhadas

 

mas eram poemas

 

e quando ainda não sabia dizê-los

era o calor da minha mãe que os dizia

por mim

 

 

Foto - Esperança tirada em Sagres - LNMarques (02/12/2010) (c) 


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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

há no escuro

 

    uma luz que vem de dentro e nos conhece

                que nos conduz e destina

                que nos põe no centro e nos dá tudo                

                o que acontece

 


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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Rosas

 

no contorno das pétalas há palavras

 

são de veludo

 

doces como as rosas

 

 

 


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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Cores?

 

 

morro quando encerro os olhos

e nasço de cada vez que os abro

 

cores?

 

vejo-as sempre

 

sempre pela primeira vez

 

 

Foto: LNM - Mercado do Bairro Copta - Cairo/Abril-2008

 

 


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Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

O tecto

 

 

Olho para o tecto e vejo

 

o limite

das coisas visíveis.

 

Depois dele

sei que as estrelas brilham.

 

Mas saber não basta.

 

 

Foto : LNM - Açores/ Ilha do Pico- Julho de 2009


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Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Os sonhos dos outros

 

 

antes de nascer pediram-me que guardasse

os sonhos que encontrasse por aí

fosse onde fosse

 

vás onde vás disseram-me

a espuma do sono

os sonhos

hás-de à beira margem descobri-los

são núvens leves a pairar como as estrelas suspensas

no ar ao redor de todas as vidas

 

que fosse guardião dos sonhos dos outros

e também dos meus

todos os sonhos à tua guarda

e também os teus

 

e o segredo caiu-me dentro até ao dia em que nasci

e o trouxe comigo à claridade dos dias

quando os vi sem culpa nem medo

porque nasci raso de tudo

e de nada

 

recolho desde então a espuma das árvores

quando elas dormem no perfume das flores

e confiam nas sementes que dão

 

também junto as noites das aves que voam

e dos bichos que andam na terra e nadam no mar

quando vão para os paraísos que vêem enquanto dormem

e lá ficam porque é bom lá estar mesmo a dormir

 

mas é no que os homens sonham e as mulheres também

que eu me deito com Morfeu em lençóis feitos

do linho das vozes que escuto no cais

 

é com os sonhos dos outros que eu sonho

 

porque vás onde vás disseram-me

não há nada que seja só teu

 

 


 

 

 


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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010

Os dois

 

 

não há nada

 

nem a luz de qualquer farol

nem o nevoeiro

nem a escuridão

nem forças por mais desumanas imaginadas

 

não há nada

 

que detenha os murmúrios que em surdina

guardamos como devem ser guardadas as palavras

que à bolina soletramos na solidão de estarmos os dois

 

não há nada

 

nada que nos demore no tempo que ambos sabemos que não há

nada que nos esconda a vontade que temos

 

não há nada

 

 

 


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Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Livrarias

 

Ando há muito tempo numa correria

pelas livrarias da minha cidade.

 

Às bibliotecas digo que não vou tanto.

Porque nos livros deposito afectos

que não se compadecem com os propósitos

dos depósitos.

 

Gosto mais de tê-los em casa

alinhados à mão e à vista,

no propósito egoísta de vê-los ali

presentes,

disponíveis,

carentes e de olho em mim.

 

É curioso como ando sempre expectante e atento

a todas as letras, de todos autores

que falam ao mundo do amor sentem por ele,

                da ternura que entornam sobre os outros,

                da alegria da via que seguem

                e da vida.

 

Mas confesso que nada, mesmo nada, do que leio

é aquilo que sempre sinto cá por dentro:

Quando vejo o mundo com os meus olhos;

quando escuto os outros com o peito

e o meu coração bate por eles.

 

 

Nas livrarias e bibliotecas há livros

que dissertam sobre a qualidade dos amores que há,

                   sobre a eternidade das paixões verdadeiras

                   e a certeza que existe para além das verdades.

 

E cartilhas?

 

Muitas… ! Até uma cartilha da ternura eu já vi.

Como se o ar quente que a proximidade me dá

me pudesse ser ensinado por outros,

ou estivesse para além de mim.

 


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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Não arrisco



tão perto andamos da verdade

meu irmão

que não arrisco a primavera

 

quando acordo e ainda com sono

abro os olhos e não vejo o desenho nítido

de um desejo vão

 

tão perto

minha irmã

que não arrisco também o outono

 

quando adormeço e me entrego

seguro de que verei ao largo tudo o que vejo certo

mesmo no escuro

 



Foto: Colunas - Templo de Karnak - Março/08 - LNM

 


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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Acima das colinas

 

talvez um dia a pureza incontida

hoje, quase sem voz, esteja  à esquina.

 

tão perto de cada um de nós  

que um sorriso contente nos trará,

mais uma vez,

os meninos que fomos ontem, quando

um dia era só um dia,

 

de cada vez.

 

talvez um dia, quando a noite estiver para nascer,

o frio escuro ganhe calor e claridade

e o estio maduro possa invadir os telhados ,

 

todas as portas

e janelas da cidade.

 

talvez um dia - quem sabe? - também Lisboa desça à rua.

 

à noite,

de madrugada,

de manhãzinha…

 

e suba à minha beira para comigo,

acima das colinas, bem acima dos beirais,

ver-se cidade inteira.

 

nada mais.

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Não parto

quis-te perfume e primavera

quis-te canção e quis-te mar

 

quero o tempo

sempre o futuro sem espera

o antes  e o depois de uma vez

sem esperar

 

mas não parto daqui para o teu corpo

sem que o meu me diga que é o tempo da partida

nem ficarei depois aí em festa

na certa incerteza que da minha passagem  

não restará rio

não restará margem

que me deixe daí partir e daí chegar


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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Jerusalém


 

 

Ó Jerusalém !

 

há uma luz que te guia para lá das luzes

 

e uma só palavra te diz como deves ser dita:

 

Eternidade

 

 

___

 

Foto: Jerusalém/Monte do Templo/ Domo da Rocha (mesquita) vistas do Monte das Oliveiras (do interior da Igreja  Dominus Flevit -O Senhor Chorou) - Foto LNMarques - 09/08/09

 


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 16:33
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Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Todos os rios

 

sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia

confesso que não vi cada um dos grãos de areia

nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro

 

sentei-me ali

 

estava como sempre estou em todas as praias

mais no sal que na terra

mais na água que no sol

quando olhei para longe e vi na linha

da fronteira celeste do mar

 

como se estivessem perto de mim

todos os rios do mundo




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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Pois que o Homem

 

Pois que o Homem tem este entendimento

e se vê partido desde sempre, assim entre dois mundos,

que sejam suas as artes visíveis que atura e levanta.

 

E também as outras que afluem desde a noite dos tempos:

Quando ele era tão só ele mesmo sem vaidade nem corpo aqui.

Tão só a paz quieta que via ao fundo quando abalava

e depois guardava chamando sua, no Coração…

 


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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

A Beleza

 

dizem-me
que a beleza de tudo quanto há
não existe por si
mas nos olhos com que a vejo
 
da beleza natural e da arte
dizem-me que a diferença vai do que é livre
ao que não é
e que a arte só existe porque tenho
a estética como necessidade
 
não sei por que para tudo
tem que haver uma explicação
nunca soube
nem por que não é a beleza só isso
 
acrescentam também que é a proporção das formas
do que tem forma
e a proporção da efemeridade
do que é efémero
 
e ao proporcionómetro
dizem nada
 
que pode ser uma questão do tempo e da moda
que a beleza retratada na história ainda é beleza
que é intemporal
 
que é o bem e não o mal
 
dizem-me
dizem-me
didem-me
 
deixá-los dizer
 



 


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Domingo, 11 de Janeiro de 2009

A folha branca

gosto de escrever com poucas palavras
quase com o silêncio

quando souberes de mim mesmo que não escreva

deixarei calado o poema
a folha branca



Foto-Biblioteca de Alexandria-Egipto Mar/08/LNM


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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Natal

 

ando intranquilo

 

bem me deito e encosto o corpo às nuvens

da minha cama de onde parto à noite

 

todas as noites daqui para a terra que sempre vi

suspensa na minha vontade desde criança

e onde o Natal acontecia doce

dia a dia

 

ando intranquilo

 

sempre que me levanto corro das núvens ao chão

lavo com água o corpo

só o corpo

e frente ao espelho pergunto a todos quantos vejo

 

quem não viu uma terra assim?

quem?

 


 

 

 

 


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 00:39
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Dias frios

 

são frios os dias quentes
se resistes
 
cultivemos então as horas
enquanto encostas as palavras que dizes
ao rigor que escrevemos nos lábios

  

 

 






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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Entra...

recolhe os sentidos que puderes recolher

e descansa de tudo

                  de tudo

dos olhos e sabores

dos odores e da pele  

da arte fugaz das musas

 

descansa

 deixa-te no pousio

                   e entra

 


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Sábado, 4 de Outubro de 2008

O Dever

quando fui carteiro punha as mãos

assim ao de leve nas cartas

e via lá dentro o açúcar das palavras doces

e a tristeza das letras desencontradas e tristes

 

com um sorriso aberto entregava umas

e as outras o dever dizia-me que as entregasse

 

quando fui soldado com soldados irmãos

entre mim e eles ouvia o clarim

que sempre me dizia que as alegrias

chegariam com o carteiro que também fui

 

e as tristezas todas ali no campo onde

poucos gritavam a sua condição de homens

enquanto outros me diziam saber por que eram soldados

 

com um sorriso aberto recebia uns

e aos outros o dever mandava-me que lhes desse tão só

a minha Paz

 

 

 


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Domingo, 7 de Setembro de 2008

Desde que na água



depois do vento vieram as ondas e os adoradores do sol
levaram-no para longe da praia
para onde a água caía quando o mundo
ainda não era redondo e a terra estava no centro de tudo
e perguntaram-lhe qual o lugar onde tudo começou
respondeu que em todos
desde que na água


Egipto/Abril 08 - Algures a caminho de Nag Hammadi - Foto LNM

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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

A Palavra

Celebração Copta - Mosteiro de S. Bishoy/Sacristia - Cairo Março08 - LNM

 

 

lá fora o deserto

cá dentro os frutos do Homem

               a Palavra

               

nua

singela

 

 

Foto:Celebração Copta - Mosteiro S. Bishoy/Sacristia - Cairo/Egipto (Março08) - LNM

 


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Domingo, 27 de Julho de 2008

É aqui

 



era esta a Luz que eu pocurava...
encontrei-a longe,
longe das multidões.

onde as Rosas são a claridade perfeita.
e o azul está onde deve estar...

no infinito.
acima dos homens.

Na casa d'Ele.


Foto:Mosteiro Copta de S. Bishoy (Sec IV)-Cairo/Egipto(Março08)-LNM


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Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Coisas simples

 

se eu tivesse o segredo das coisas mais simples

ter-me-ías dado à luz

 

mãe

 

como aquela árvore maestosa

que a chuva fez crescer comigo

 

eu teria crescido com ela e tú

ao longe terias visto o teu menino diferente

em cada estação e a nascer sempre

em março todos os anos

todos

 

ah!

quantas vezes serias  minha mãe?

e quantas vezes te chamaria quando te chamasse?

por que nome gritaria eu nas noites frias

quando o frio caisse rigoroso?

 



 


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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Flôr de anis

tão perto foste minha estrelada

e austera flôr de anis

 

tão certo assim tinha errante e afastada

a espera que ao longe cria sem querer

 

que além mas não perdidos via também

sinceros os teus olhos e o teu mosto perto de mim

no teu rosto de mulher




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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Natal


diz-me o que não dizes

em silêncio

quando nem as palavras nascem

 

fala-me dele

da escuridão do som e do escuro das noites escuras

 

e também da luz

da noite grande luminosa

 

diz-me

diz-me que dezembro só é frio

quando queremos que seja frio

 

 




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Domingo, 28 de Outubro de 2007

A minha varanda

é da minha varanda que vejo tudo

assim tão pequeno e raso

lá baixo

 

não me lembro se foi nos livros que li

que a distância faz as coisas pequenas ao ponto

de não as vermos mesmo quando lá estão

sempre

 

presumo que é na minha varanda então

que nasce a distância dos caminhos

                    a dimensão das horas

 

o tamanho das searas maduras e o tempo

que leva no verão a ceifa

  




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Sábado, 6 de Outubro de 2007

Admirável mistério

o que tem de admirável o mundo
não é tanto o que eu não sei do mundo
mas o que eu não sei de mim
 
o que faz dele este admirável mistério
não é tanto ele
mas eu
 
porque sem mim nada seria surpreendente
nem misterioso
 
porque os mistérios do mundo existem
tão só porque existo
e me surpreendo



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Domingo, 23 de Setembro de 2007

A leste do mar tão largo

 
e eu faço adeus daqui
do lado de cá
da margem a leste do mar tão largo
 
e tu perguntas
porque são de pedra os castelos
e frágeis
refulgentes as rosas estampadas nos vitrais
 
seriam
 
de areia os castelos
e as rosas sempre mães 
se as pátrias fossem praias e a história contos
 
só de embalar
 



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Domingo, 2 de Setembro de 2007

Dois dedos de silêncio

conheço os que saem de viagem
ao fim da tarde
de visita ao jardim de todos
 
umas vezes passeiam-se outras a estimação
que têm pelos animais que guardam à trela
em casa
onde dizem que moram
 
esperam as horas sentados ao redor das fontes
feitas para estarem ali
            onde alguém quis
 
quase sempre conversam uns com os outros
sobre tudo o que é importante para cada um
            o tempo que fez naquele dia e que fará no seguinte
            as insónias do calor da noite passada
            a importância das bagatelas
 
dois dedos de conversa
e regressam a casa como regressarão ao jardim
no dia seguinte
 
e conheço os que entram de viagem
que não saem que se veja mas que vão sempre
a fontes onde só eles sabem ir
e a pomares onde nunca chove porque chover é triste
 
dois dedos de silêncio a eternidade
e regressam do coração
 
regressam a si donde nunca saíram



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Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Noutras circunstâncias

1 . Noutras circunstâncias seria padre:
                    condutor de almas tresmalhadas,
                    distribuindo penitências pelos pecadores confessos.
 
2 . Noutras circunstâncias talvez fosse o Cristo:
                    tresmalhando almas, desarranjando certezas,
                    dando penitências aos bem comportados.



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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Antes e depois

não sei porquê
não sei mesmo
mas sempre vi o tempo numa circunferência
em que o futuro está ali
antes do passado e depois do presente
 
e se na linha está o tempo tenho do círculo
a ideia do mundo que dentro da fronteira
olha para cada um dos seus pontos
e em todos e cada um encontra
o que está depois do antes
e antes do depois
o presente
 
também não sei porquê
mas não consigo imaginar o que é
e o que vai para além do traço
 
imagino que seja maior
mas não imagino o que possa ser
 
o futuro pode mesmo estar à mão de um passo
cada vez mais pequeno porque o passado
cresce
cresce sempre
 
então
ou a circunferência alarga e há tempo que é criado
do nada
ou o passado invade o futuro
e eu não sei onde pôr o presente
 
é certo que tudo tem só a importância
que lhe damos
e pode até não ser importante para outros
a ideia que eu faço do tempo
e também do mundo
 
mas porque tudo tem tão só a importância
que tem
sem tempo não tenho o que dizer
e não sei se condeno o poema ou se ele
verdadeiramente nasce



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Domingo, 10 de Junho de 2007

És tu


pastor do Sol
ferreiro dos arados da Terra
 
és tu
 
é o teu perfil que leio
no contorno geométrico do pólen
 
sempre que anuncias os artesãos
da primavera



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Terça-feira, 15 de Maio de 2007

Sementes

 
 
é verdade que ninguém morre
nunca
 
regressamos apenas e ficamos
pastores
 
e as tuas e as minhas mãos sementes
que o cio da terra nos pede



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Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

Desejo

há-de sorrir o trevo
sempre que um desejo se levanta
no corpo de quem passa
 
hão-de as tentações
ao sol
como as campainhas ondular
 
incandescências



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Sexta-feira, 13 de Abril de 2007

Como podem?

só estou perto de tudo quando amanhece

perto de tudo mesmo que não queira

 

e então

também escrevo cartas de amor

poemas brancos sem linhas que me levem

onde todos vão

 

não fecho os olhos por acaso

só porque estou e não quero ir

 

o acaso não tem lugar aqui

nunca teve lugar onde estamos

nunca esteve para estar connosco

 

e dizem que os rumos de quem quer

são ligeiros

sempre ligeiros

 

como podem?




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Domingo, 8 de Abril de 2007

É aqui

é aqui que venho 
quando me procuro
 
o cenário que vejo primeiro é branco
e só depois
 
o mar
a terra
o mundo
 
como argila nas minhas mãos
 



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Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Deixo

deixo em testamento a tua sombra
e só ela
aos que virem na penumbra dos teus ramos
o abrigo
 
aos outros o Sol
que dorme enquanto durmo
no além submerso que avisto
 
e aos restantes o resto
que é tudo o que diz o poema
no dia do achamento
 
 
(No dia da árvore, do sono e da poesia)



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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

Dito assim

 
dito assim parece simples
porque as palavras se despem e humildes
vestem as frases que escrevo no poema
as horas que escrevo na cidade

ainda hoje não sei porque é preciso
explicar tudo
não sei porque vejo os dias quase todos os dias
sentados na falésia à minha espera
acossados pelo fascínio do sal das ondas
iludidos
iludidos

sabes?

nunca me perdi na rua como no tempo
nunca me perdi no tempo como nos instantes
e nunca o acaso me olhou da praia e desejou
que eu fosse além do destino profundo da espuma
leve
leve
 

(Republicação)
 


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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

Dos amores impossíveis

 
tranquila, muito serena e a recato estava
doutros animais a redonda e gentil galinha.
 
e seu dono que ao lado do galinheiro tinha
animais de pelo, reunidos em manada,
tranquilamente seu espirito mantinha
e, dia fora, outros rebanhos guardava.
 
pertinho da capoeira, à solta quase sempre,
um coelhinho branco de pelo e de orelhas,
farto de privar com três dúzias de coelhas
caiu de amores pela galinha, perdidamente.
 
e num daqueles dias mornos de primavera
em que os corpos pedem festa e muito calor,
de penas e bico ao vento estava a galinha
 
quando afoito e veloz lhe saltou asinha
o coelho tresloucado, que nem uma fera:
 
-Óh loucura! Óh tardio amor, insano desejo!
 
vinte dias depois após noite de cacarejo
sem dor, em boa hora, sem mágoa nem alaridos,
 
deu a galinha à luz dez ovos de Páscoa, coloridos.
 
 
(Aos meus amigos foliões de Torres Vedras)



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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Vénus



nas marés imersas no perpétuo
transito de Vénus
 
sentes a bombordo na espuma
o rosto incompleto da praia
 
imagina só
 
imagina se no perfil do escuro incendiado
todas as estrelas fossem da manhã



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Domingo, 7 de Janeiro de 2007

Chá


 
I
 
e i a as a   o ai   a á ua e e e
e o a o   o u e ei a a   ai
a   o ao e
 
e u e a a e a a a o o o   as   o e a
ã
 
é o   á e e i e ue a eu e
a    e i o   á e a a   e o o e a
 
i ia
 
II
 
r t r v s s v g s d   g   f rv nt
n v p r    l m d x v s c r
s c ns nts
 
f m g v p l c s     d r d s pr m ss s
v s
 
ch d g ng br q    q c
m s pr f r ch   d   s s d b rb l t s
 
d z s
 
III
 
retiravas as vogais da água fervente
e no vapor do lume deixavas cair
as consoantes
 
e fumegava pela casa o odor das promessas
vãs
 
 
é o chá de gengibre que aquece
mas prefiro chá de asas de borboletas
 
dizias



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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007

Recomeço


em cada recomeço lá estão
as tecedeiras
os fios
 
e nós ali
sentados a ver como se faz
calor
  
e é o linho virgem que revemos nos teares
 
que Janus tece



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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

Todo o ano

durante todo o ano colecciono
palavras, na sacola dos meus silêncios.
 
e no dia da noite mais longa
sento-me cá fora, como hoje,
 
e por esta altura, só por esta,
corro no escuro, desato aos gritos e espero
 
que outro dia chegue



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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Preto no branco

ontem
parei de um lado da rua e vi-me no outro
e de ambos os lados fiquei
na esperança que a esperança caísse
 
eu sei que nem sempre me vejo assim
de cá e de lá separado pelo mundo
nos dois lados do mundo e separado por ele
 
sei que nem sempre me reparto como escrevo
porque nem sempre a tinta é negra e o papel assim
 
porque o preto no branco e o branco no preto
podem ser o caminho das metades
mas não do meio



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Domingo, 5 de Novembro de 2006

Só eu sei

 

sento-me à soleira do teu corpo

 

quieto na vontade

e meigo nas ambições

 

encosto-me ao berço do tua voz

 

ao teu peito

de murmúrios tenros

 

e só eu sei

 

só eu sei

como adormeço

 

(Republicação)

 




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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

No poente

eles descem
 
mas tu vais dizendo
que os mares andam rios acima
e acabam onde morrem as nascentes
 
lá longe
 
no poente dos olhos de água



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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006

Basta-me!

pudera eu despir-me aqui perante vós
que mesmo nu continuaria adornado
desta minha condição humana:
pedra e força bruta.
porque as faces mesmo lisas não deixam de ser rudes,
nem as arestas por mais perfeitas deixam de ser ríspidas.
 
pudera eu vir aqui fazer-vos
a critica da convicção pura
e falar-vos de tudo quanto sinto mas não digo.
 
pudera eu vir aqui expor-vos os argumentos
das razões que não sei se tenho
e de todas as opiniões que pari desde que me entendo.
 
pudera eu ser um homem sempre justo…
que as outras imperfeições carregá-las-ia de bom grado
no saco da minha consciência.
 
pudera eu dizer tudo isto e ser entendido,
e não estaria aqui convosco.
 
mas quis a fortuna que o Grande Arquitecto
permitisse que, no prefácio da narração dos tempos,
os homens nascessem brotando do chão.
 
quis Ele que na Idade do Ouro o Sopro Criador
se confundisse com as criaturas,
que o Homem fosse o guardião das cores,
o zelador de todos os ocres e pigmentos.
 
quis Ele dar ao Homem a sede autentica mais a divina figura.
também a ousadia, fundamento da Liberdade.
 
quis ainda a sorte que Prometeu nos desse o lume divino,
e que a caixa de Pandora, senhora de todos os dons,
se abrisse entornando contratempos.
 
desde então as ideias são como alaridos e esgrimas
e as frases soam a desconfianças bastardas.
rebuscamos no campanário das vozes e das prosas de Babel,
a Palavra que um dia dará forma à doutrina do entendimento humano.
catamos na multidão dos vocabulários,
nos mistérios dos catecismos,
no frágil talento dos nossos rudes critérios:
o Sopro Divino, Grande Alento, brasas de Luz a partir do nada;
a Harmonia das Esferas, caroço das perfeições possíveis;
os pedaços, na miragem de chegar ao Todo colando as partes.
 
dói olhar para um homem, vê-lo só a ele, e nem sequer todo...
dói procurar nas Borras da Fundição, olhos que vejam como os nossos...
dói encostar o ouvido ao búzio e não adivinhar o sabor do sal...
dói tanto...
 
mas no dia em que o céu se partir,
as tábuas da mecânica do mundo hão de peregrinar.
nesse dia estarei convosco, para guardá-las.
 
Basta-me!

(Republicação)


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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

Não sou de cá...

não sou de cá, dizes-me tu.

 

não és.

não és mas sabes

que todos os rios conhecidos moram aqui...

 

onde?

 

aqui. na fonte dos caminhos.

         

        no teu peito...






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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006

Então sim

no pousio das incertezas
na cegueira dos murmúrios
 
então sim
 
o silêncio
 
 
(Boas férias para todos. Voltarei no final de Agosto...)

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Domingo, 23 de Julho de 2006

São nódoas

ouço-os

 

e sempre te digo que os tambores

quando rufam assim são nódoas

 

não pode ser este o acaso das tuas mãos

 

não podes cegar a virgindade das bandeiras assim

com este sono intranquilo


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Sexta-feira, 7 de Julho de 2006

Rosas maduras

 

canto Saturno mais os grãos que deitou

ao chão do Olimpo e às brisas nocturnas

onde me deito

 

guardo a chama que Júpiter quis

das Ninfas que o guardaram por Cibele

 

e o pólen que regurgitou dos seios túrgidos

das amas que lhe deram leite

e mel de rosas maduras


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Segunda-feira, 26 de Junho de 2006

Irra!

a dramática lógica da batata

mata a isoiética parabólica

da pata que pariu a acústica

elíptica da fonética marata

 

a álica ceifada fica erecta

encafifada no ameno feno

no pó da mó da atafona

 

e o moleiro de quiriotecas

(que fazer farinha é ritual)

abre portas frestas e janelas

 

e de malga de intrita na mão

assim grita

 

irra!

Irra!

 

que entre catacáustica luz

que ilumine a dramática lógica

da batata que pariu a catacústica

de que tanto se fala

 

e ala

ala que se faz tarde

 

irra!


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Sexta-feira, 16 de Junho de 2006

Demora


não te digo hoje

 

não te digo amanhã porque do tempo

tenho a leitura das palavras

 

cada letra uma espiga só uma

e em cada poema a demora das searas



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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Juno

colho a graça das perfeições nuas

porque as formas são apenas formas 

na cal dos muros

 

e na penumbra da verdura que deles cai

está Juno deitada na brancura de todas as cores

 

que o branco tem

 


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Segunda-feira, 22 de Maio de 2006

Há cidades onde

sempre que a noite se cala

quando cresce o sol

e a lua desce

 

há cidades onde

os cães passeiam os donos

e correm do futuro para o passado

as águas que o tempo dá


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Quinta-feira, 11 de Maio de 2006

Incenso

não me peças

de regresso o sândalo

 

não me queiras

âmbar

 

de regresso ao leito

gosto de trazer os rios

 

e o incenso

da rosa


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Segunda-feira, 1 de Maio de 2006

Maio

em que outro mês caberia

um dia só

do trabalho?

e do silêncio?

 

que outra lua seria

o branco de todas as noivas?

 

que outras cores se não todas

para maio

das papoilas?

 

de que outra mãe serias filho

Hermes?


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Segunda-feira, 17 de Abril de 2006

Às vezes


às vezes pergunto ao espelho
o que está depois dele

tudo

e ninguém que não esteja comigo aqui
neste lado como no outro

em cima
como em baixo




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Quarta-feira, 5 de Abril de 2006

Simplesmente...

escrevo na fronteira marítima do céu
na fronteira celeste do mar

escrevo no fio dos horizontes
nas linhas terminais que avisto
nos caminhos intermináveis que encontro

simplesmente escrevo
escrevo simplesmente


(Ao meu amigo Carlos Martins)

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Terça-feira, 28 de Março de 2006

Na floresta



misterioso é o tempo
das águas matinais e do sol tardio

misterioso é o tempo de março
insondável o silêncio
em que vivem
no mês de todos os recomeços

calam-se indiferentes
ao que pergunto
ao que respondo

mas pressinto que me sentem
pela sombra rasa de afectos







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Terça-feira, 21 de Março de 2006

SONHO GENUINO



os meus dias eram todos os mil filhos do Sono
e as minhas horas irrompiam aladas
como o vento irrompeu do odre
enquanto o herói se entregava a Morfeu

não sei qual dos companheiros enxotou o destino
quando desapertou o cordel das ventanias

mas ainda hoje as vejo errarem por direcções imprecisas
sempre contrárias ao sonho genuíno de Ulisses





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Domingo, 12 de Março de 2006

De nada

aqui
onde o cheiro do alecrim
não chega à resina livre das estevas

sentado no lugar de todas as imperfeições
em março mês dos equinócios que reconheço
tenho a esperança dos amores perfeitos
e quero respirar o perfume dos lírios
a eternidade

aqui
onde cultivo o que não vejo disseram-me
que os meus sonhos existem por minha causa
e que no jardim onde semeio a vontade
os canteiros não são margens de nada

de nada


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Quarta-feira, 1 de Março de 2006

O banho

é um fio ligeiro
uma linha cristalina que exala calor e espuma
que transparecem no ar

é o feitiço dos rios que em casa me chama

os dedos passam leves
quase escrevem na humidade

assim me dispo
e assim despido entro devagar
e docemente a água me veste









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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006

Animais de estimação

tenho um cão velho e louco
louco de paixão por gatas

bem lhe digo que no mundo
cada um deve estar no seu justo lugar
os cães no mundo dos cães
as gatas no mundo dos gatos

bem lhe digo e quando lhe falo
olha-me com aquele olhar doce que sabe pôr
e vai miando as suas mágoas de cão
porque as gatas querem gatos
e cães não

tive antes deste cachorro
uma gata persa exuberante
olhos azuis
pêlo cinza bem macio

fora eu gato seria ela a minha gata
fosse eu cão e seria dela
seria minha a sua pata

bem lhe dizia que no mundo
as almas gémeas das gatas são gatos
e das cadelas os cães
olhava-me com aquele olhar triste que sabia pôr
e gania as suas mágoas de gata
porque os cães se ficavam pelas cadelas
e por ela não
...
tenho um cão velho e louco
tive uma gata persa exuberante
e hei de ter um periquito





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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

Escriba


olharás
olharás sempre a mão do escriba
o movimento imperceptível dos seus dedos
como da primeira vez

ele desenha
desenha-te as palavras e depois delas as frases

o contorno das penumbras que ditas





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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Que te digo?

se me falas da efabulação dos dias
se os escreves em páginas verdes
em folhas que nunca vês maduras

se me dizes que são já tardias
as cores
a tinta das tardes puras
que sempre trago
que sempre levas e não dispensas

que te digo?

ah! se as estações fossem todas só uma
aquela em que o fresco halo da manhã
luminoso se desata


Também no Incomunidade

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006

Utopias

fermentos
utopias

à noite
quando a humidade condensa cristalina
e no ar respiram escuras
as ausências do verão

agora
neste mês em que Janus transpira
o tempo ainda verde e o vinho
ainda tão novo





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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006

Mozart - 250 anos


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