Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Tudo é de todos (XV)

 

O padre, para que não anoitecesse entretanto, tão asinha quanto entrou também rezou a missa de encomenda das almas. Saído do altar o padre encabeçou o cortejo do funeral, logo seguido de João. O curto percurso foi muito chorado por todos, menos por ele. Caía a penumbra quando a última pazada de terra caiu. Os coveiros bateram cuidadosamente a terra, dando forma às sepulturas, e deram o trabalho por terminado

Foi invadido naquele momento por uma tristeza misturada com a alegria de saber o que uma luz lhe dizia.

A vida, pensou, é uma só desde o princípio dos tempos, é uma linha intermitente que se interrompe e é retomada, sem interrupção nem retoma, porque o tempo é tão só o eterno presente. A morte não é nada de definitivo, porque no presente tudo acontece, tanto a morte quanto a vida, tanto a saída como também o regresso. E não é preciso procurar a perfeição nem a verdade porque as somos e temos mas presumimos que não.

Colocou-se fora do portão de ferro do cemitério para que todos o cumprimentassem à saída, após o que fez sinal ao padrinho para abalarem dali.

Sempre calado, já iam longe quando João pediu ao padrinho que regressasse à aldeia e que o deixasse em casa dos falecidos pais. Ao fim e ao cabo aquela casa era agora sua e sentiu necessidade de ficar por ali uns dias.

Deram meia volta e, só passados longos minutos, ele regressou ao assunto dos pais.

 

           - Até que ponto o padrinho conhecia os meus pais?–perguntou.

 

          -  Na verdade – respondeu o padrinho – foi na tropa que construí 

             amizade com o teu pai. Ele, por lá, sempre me falou da tua mãe

             como  a sua princesa. A tua mãe não a conhecia tão bem,

             mas das poucas vezes que privei com ela sempre a vi

             apaixonada pelo teu pai. Conheciam-se desde crianças, como

             sabes…

 

Chegados à porta da casa dos compadres o padrinho mandou parar a diligência e ele saiu.

 

            - Manda-me dizer quanto quiseres regressar. Mandarei cá

              alguém…

 

            - Darei notícias – respondeu ao padrinho.

 

João entendeu passar ali a noite, junto às memórias dos seus progenitores. Resistiu à insónia até que, perto da meia-noite, saltou da cama. Aquela noite de lua cheia chamava por si. Saiu porta fora a caminho de uma ceara de trigo maduro. Porquê? Perguntava ele a si próprio. Porque nunca sentiste as espigas à lua, respondia ele a ele mesmo. E estava nisto quando uma secreta esperança lhe cochichou ao ouvido que aquela seria uma noite muito singular.

(continua...)

 

 



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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Jerusalém


 

 

Ó Jerusalém !

 

há uma luz que te guia para lá das luzes

 

e uma só palavra te diz como deves ser dita:

 

Eternidade

 

 

___

 

Foto: Jerusalém/Monte do Templo/ Domo da Rocha (mesquita) vistas do Monte das Oliveiras (do interior da Igreja  Dominus Flevit -O Senhor Chorou) - Foto LNMarques - 09/08/09

 



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Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Todos os rios

 

sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia

confesso que não vi cada um dos grãos de areia

nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro

 

sentei-me ali

 

estava como sempre estou em todas as praias

mais no sal que na terra

mais na água que no sol

quando olhei para longe e vi na linha

da fronteira celeste do mar

 

como se estivessem perto de mim

todos os rios do mundo





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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Pois que o Homem

 

Pois que o Homem tem este entendimento

e se vê partido desde sempre, assim entre dois mundos,

que sejam suas as artes visíveis que atura e levanta.

 

E também as outras que afluem desde a noite dos tempos:

Quando ele era tão só ele mesmo sem vaidade nem corpo aqui.

Tão só a paz quieta que via ao fundo quando abalava

e depois guardava chamando sua, no Coração…

 



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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Tudo é de todos (XIV)

 

 

O padre falou durante mais de uma hora. O sino da igreja bateu as meias e as horas completas e ele nem deu por isso. Só quando viu João tirar o relógio do bolso se apercebeu da dimensão do discurso. Foi então que se calou e, depois de uma breve pausa, enquanto coçava a cabeça e ajeitava os poucos cabelos, acrescentou:

- Lembro-me bem do dia em que te baptizei. Na altura senti que a água, que em nome do Espírito Santo te entornei pela cabeça, não te lavou a alma. Nem tampouco o sal que te pus na boca expulsou para o deserto qualquer demónio que por conta do pecado original dos homens estivesse escondido dentro de ti. Foi em nome e em sinal da sabedoria que te dei o sal, e ele nada acrescentou.

João, impaciente, olhou o padre nos olhos. Leu as angústias de quem não tem muito mais tempo e, o padre, percebendo que ele tomava fôlego para falar antecipou-se:

-Sempre foste puro, ao ponto da Igreja nada te poder dar. Sempre te afastaste. Porquê?

- Eu sei o que o atormenta – respondeu João. Não vale a pena toda essa conversa redonda em que tudo tem a ver com tudo e também com nada. O padre sabe que a Igreja de Jesus Cristo, que no início foi dos pobres, tomou depois o caminho dos ricos. Em nome do poder a pureza deixou de conduzi-la. A promessa do paraíso passou a ser perigosa e deu lugar à pregação da paciência humana: sede pacientes que será vosso o paraíso. No princípio havia um espelho e o que era em cima era como em baixo, e o que era em baixo era como em cima. Aqui se queria construir algo mais próximo do entendimento divino das coisas. Posteriormente, para a Igreja, tudo perdeu essa actualidade e só depois da morte o paraíso poderia ser de todos. Mas, se assim é, não percebo porquê o medo de morrer. Ou será que as suas certezas vacilam? – rematou, sabendo de antemão a resposta.

O padre olhava-o enquanto acenava em sinal de concordância. Todo o seu discurso, em que as meias palavras escondiam a confissão das suas dúvidas, fora sintetizado pelas palavras inteiras daquele jovem que ele baptizara em tempos.

Alguém bateu à porta da sacristia e João apressou-se a abri-la. Do lado de fora uma vizinha sua cochichou:

- Ou bem que começa a missa e parte o funeral, ou bem que enterramos os teus pais depois do pôr do sol…

João sabia que a tradição mandava que se sepultasse os defuntos antes do sol posto. Olhou para a padre, atrás de si, e quando se voltou para responder à vizinha já ela tinha virado as costas e regressado ao seu lugar.

Na falta do sacristão o sacerdote pediu-lhe ajuda para a paramentação e ele, pacientemente, foi passando o que o padre lhe ia pedindo à vez, da alva à casula adamascada e depois à estola. Depois, pé ante pé, saiu da sacristia e dirigiu-se à primeira fila de cadeiras. Reparou que a igreja estava completa. Sentou-se e aguardou pela entrada do padre.

(continua...)

 



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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Tudo é de todos (XIII)

Cada uma das velhas ostentava um terço na mão e todas rebolavam, à vez, uma conta entre os dedos. Depois de João entrar na Igreja, entre soluços e sem esforço as velhas regressaram, acertadas e em coro, às Avé Marias. Tomavam fôlego as três ao mesmo tempo mas no fim de cada oração desacertavam o Amén,  para que se ouvisse o mantra três vezes seguidas. 

Das velhas João levou para dentro do templo o cheiro a lenha queimada e da água com que se lavaram de manhã, pormenores que logo se apagaram quando vislumbrou ao fundo do corredor de cadeiras da igreja, abaixo do altar e lado a lado, os dois caixões onde repousavam os corpos pais. Caminhou, sem pressa e parou defronte do altar. Então, abateu-se sobre ele uma tristeza tão profunda que nem o colorido das flores conseguiu evitar. Reparou que aquela tristeza, vinda bem de dentro, não lhe dava vontade de chorar. Olhou para uma das janelas que, a sul, deixava entrar uma luz que um vitral coloria de muitas cores. De pé, perante o que restava dos pais, inclinou a cabeça e não conseguiu pensar em nada que não fosse a luz que através da janela incidia sobre os seus pés. Fez um esforço para não sentir nada que não fosse aquela luz e só ela, porque receava ver o amadurecimento dos corpos e a dissolução no todo dos espíritos dos progenitores.

Deu-se por satisfeito quando se distraiu porque as pessoas presentes, ao verem-no ali de pé, se levantaram e fizeram fila para lhe dar os sentimentos. Sabia que os pais eram estimados pela vizinhança e as palavras que lhe foram dizendo enquanto esperava pelo funeral, mais o que ele via para além das aparências, confirmavam esse seu juízo.

O padrinho, que entrara na igreja um bom bocado depois dele porque o vício do tabaco o assaltava à porta de todos os templos, tossiu para chamar a sua atenção. Ao desviar os olhos na direcção do padrinho viu que ele acenava e lhe fazia sinal com o dedo indicador, apontando para a sacristia. Percebeu que o padre tinha chegado pela porta lateral do edifício e queria conversa antes da encomenda das almas. João pediu desculpa aos presentes e dirigiu-se à sacristia.

Encontrou o pároco frente a uma cómoda de três peças onde o sacristão dispunha cuidadosamente os paramentos, dia após dia, celebração após celebração. Em cima do móvel pontificava um crucifixo velho da idade da igreja e, para ele, rezava o clérigo um padre-nosso dito em voz não muito alta e num latim primoroso. João fez que se queria livrar do catarro e o padre, indiferente, continuou a oração. Só depois de ter cantado o Amen final olhou para trás:

- Ah! És tú, João. Então…a viagem de regresso às origens foi penosa?

- Tirando a razão por que a faço, nem por isso. Quando as distâncias são conhecidas e conseguimos que os pensamentos vagueiem, não se dá pelo tempo nem pelo incómodo. E depois…vim na companhia do meu padrinho – respondeu João.

- Sim, eu sei – ripostou o padre. Vi-o há pouco no adro e pedi-lhe que te dissesse que viesses até aqui…

Depois de uma breve hesitação o padre olhou para o tecto da sacristia onde sabia estarem quatro couros de anjinhos seminus e anafados, cada um deles pintado em seu canto. Confortado pela liturgia dos olhares ternos e tenros dos anjos continuou:

- Sabes? A idade que tenho já é muita e ando por aqui desde a minha ordenação. Já vi de tudo. E tudo quanto a Santa Madre Igreja me pediu que empreendesse, obedientemente empreendi. Desde exorcismos, baptismais e doutra natureza, até às práticas mais próximas do demónio do que de Deus, a tudo acedi por consciência da obediência que devo a quem, em nome do Deus a que rezo, governa a minha igreja…

João captou nas palavras do padre o início de uma confissão. O velho padre, o mesmo que o baptizara, estava ali com as ideias num turbilhão quase do tamanho do princípio de todas as coisas. Parecia disposto, também ele, a separar a luz das trevas, mas da sua vida.

(continua…)

 



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Quarta-feira, 11 de Março de 2009
A Beleza

 

dizem-me
que a beleza de tudo quanto há
não existe por si
mas nos olhos com que a vejo
 
da beleza natural e da arte
dizem-me que a diferença vai do que é livre
ao que não é
e que a arte só existe porque tenho
a estética como necessidade
 
não sei por que para tudo
tem que haver uma explicação
nunca soube
nem por que não é a beleza só isso
 
acrescentam também que é a proporção das formas
do que tem forma
e a proporção da efemeridade
do que é efémero
 
e ao proporcionómetro
dizem nada
 
que pode ser uma questão do tempo e da moda
que a beleza retratada na história ainda é beleza
que é intemporal
 
que é o bem e não o mal
 
dizem-me
dizem-me
didem-me
 
deixá-los dizer
 



 



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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
Tudo é de todos (XII)

Acabadas as férias regressou aos estudos. Curiosamente aquela pausa fê-lo duvidar da utilidade do saber dos livros. De regresso à escola sentia as suas convicções, a propósito da ciência e dos homens, cada vez mais frouxas. Atribuiu isso às situações que vivera durante a sua estadia na aldeia e à força com que as mesmas o tinham impressionado.

Após três meses em que dormiu mais do que esteve acordado e em que conseguiu nos estudos, mesmo assim, resultados acima do que seria de esperar, recebeu notícias do padre da sua aldeia. Tratava-se de um bilhete com apenas três linhas que o seu padrinho,  visivelmente transtornado,  lhe entregou naquele fim de tarde.

Recebeu, também ele preocupado, o bilhete . Desdobrou-o com todo o vagar do mundo por que sabia o que lá vinha escrito. O padrinho deixou-se estar de frente para ele e, colocando as mãos nos seus ombros, transmitiu-lhe através do olhar um sentimento autentico de desolação.  Atónito, João cerrou  a mão onde segurava o bilhete que acabara de receber. Enquanto o amarrotava viu cair-lhe uma densa escuridão diante dos olhos, muito embora os mantivesse com esforço  bem abertos. Foi no escuro que então se fez que reviu aquele sonho mau que o perseguia desde a última visita aos pais. O que o padre reclamava no bilhete  era a sua presença, uma vez que, não sabia com que intervalo, lhe tinham falecido os pais: os dois de uma assentada na noite anterior.

Tinha decidido abalar para o gozo das férias de verão dali a duas semanas, depois de fazer as arrumações de fim de ano. Perante os acontecimentos antecipou para a manhã do dia seguinte o regresso à sua aldeia. Fê-lo na companhia do padrinho, que entendeu acompanhá-lo no sofrimento.

 

A diligência serpenteava o caminho de acesso ao casario que se via ao longe, quando o padrinho, vendo que dormitava, chamou a sua atenção para o toque compassado dos sinos da igreja. As ondas sonoras que deles saíam refulgiam pela encosta acima, ao mesmo tempo coloridas e tristes. Entre cada dois toques caía um silêncio sem côr, sem cheiro nem sabor, próprio da tristeza da ocasião.

Não sendo a igreja muito grande, era rodeada por um adro generoso. A igreja tinha a orientação tradicional, com a cabeceira voltada a nascente, donde vem a luz. Toda a parede norte do templo era cega, sem janelas que se vissem de fora mas com elas pintadas no seu interior. Dizia o padre, em sermões de feições mais simbólicas, que assim tinha sido construida por que a norte não vale a pena abrir janelas para a escuridão e, por dentro, é de justiça manter a simetria que os templos devem oferecer aos crentes durante as orações.

Era aos pés da parede norte, por de trás de um gradeamento muito enferrujado, que se situava o cemitério da aldeia. Fora construido quando há mais de um século a lei mandou que se enterrassem os mortos fora das igrejas. Antes disso as famílias mais abastadas disputavam o chão do altar na esperança de que, enterrando os seus defuntos aos pés do Santíssimo, os caminhos radiosos do paraíso se abrissem com facilidade redobrada à sua frente.

A diligência parou frente à escadaria da igreja e, tanto João como o padrinho, saíram calmamente. Frente ao velho portal do templo, onde tenro e de cueiros tinha sido baptizado, sentadas num banco corrido de pedra, três velhas carpideiras que durante toda a vida fizeram de amigas da mãe, choravam, choravam, choravam...

 

(continua...)

 



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Domingo, 11 de Janeiro de 2009
A folha branca

gosto de escrever com poucas palavras
quase com o silêncio

quando souberes de mim mesmo que não escreva

deixarei calado o poema
a folha branca



Foto-Biblioteca de Alexandria-Egipto Mar/08/LNM



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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008
Natal

 

ando intranquilo

 

bem me deito e encosto o corpo às nuvens

da minha cama de onde parto à noite

 

todas as noites daqui para a terra que sempre vi

suspensa na minha vontade desde criança

e onde o Natal acontecia doce

dia a dia

 

ando intranquilo

 

sempre que me levanto corro das núvens ao chão

lavo com água o corpo

só o corpo

e frente ao espelho pergunto a todos quantos vejo

 

quem não viu uma terra assim?

quem?

 


 

 

 

 



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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008
Dias frios

 

são frios os dias quentes
se resistes
 
cultivemos então as horas
enquanto encostas as palavras que dizes
ao rigor que escrevemos nos lábios

  

 

 







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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008
Entra...

recolhe os sentidos que puderes recolher

e descansa de tudo

                  de tudo

dos olhos e sabores

dos odores e da pele  

da arte fugaz das musas

 

descansa

 deixa-te no pousio

                   e entra

 



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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
Tudo é de todos... (XI)

Caíu na cama e, ainda não tinha encomendado a alma e o corpo aos anjos,  já dormia que nem o justo dos justos. Dormiu e sonhou profundamente naquela noite. Andou por todo o lado, leve como as coisas leves que ficam suspensas quando a gravidade não as chama.  

Quando os seus os sonhos eram bons e se, por qualquer razão, saía deles a meio, tinha por hábito cerrar calmamente os olhos procurando que o sono regressasse e que os sonhos tivessem a sua natural continuidade. Só que, depois de um intervalo, por mais pequeno que fosse, muito raramente lhe acontecia a cena ser a mesma: quebrada a lógica e a continuidade, destrambelhava-se a história, os personagens, o espaço e o tempo. Nem o sono, nem a vontade de regressar, conseguiam pôr tudo no sítio, por forma a retomar o enredo onde o tinha deixado.

 

Naquela noite, depois de um vôo rasante a uma montanha repleta de árvores centenárias deparou-se, no outro lado da encosta, com o funeral dos seus próprios pais. Era um sonho, ele sabia que era um sonho, mas mesmo assim estremeceu perante a antevisão da morte dos seus progenitores.  Acordou num sobressalto, com o corpo em desordem. Para além dos suores frios o coração batia-lhe quase fora do peito e, como cereja em cima de um bolo, uma intensa  dor de cabeça martelava-lhe as temporas. Tinha sido um pesadelo. Um sonho mau, mas tão real que o corpo deu mesmo sinais de viver o momento.

Desde criança que o realismo dos seus sonhos era assim. Ele sabia  que a maioria das pessoas  costumava ter sonhos descansados. Daqueles sonhos em que todos os males do mundo lhes pode acontecer que o seu consciente adormecido os encara como se fossem uma peça teatral a que  assistem na plateia. Não era assim com ele. Os seus sonhos eram outros e, a serem peças de teatro, ele era o protagonista de uma acção que  se confundia com a realidade. Ou seria ela mesma...(?)

Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e bebeu um copo de água. Regressou depois à cama e não pregou mais olho até que o sol nasceu. Olhava para o tecto do quarto e via lá reproduzido o mesmo pesadelo.

Lembrou-se dos que dizem que os sonhos são visitas aos mundos paralelos e que, uma vez lá, o sonho e a realidade invertem os seus papeis. No conforto quente da cama o sonhador é o sonho, enquanto a realidade se desenvolve à margem da sua vontade. Lembrou-se que sempre entendera os sonhos como uma das formas da revelação das coisas futuras. Sete foram as espigas gradas e sete as falidas. Sete foram as vacas fracas e sete as robustas. Tudo viu o Faraó.  E lembrou-se, também, da “História do Futuro”,    Vieira no seu melhor: “o primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar coisas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem, é para que conheçam clara e firmemente os homens, que todas vêm dispensadas por Sua mão”.

Se a realidade é ou foi o sonho, e se o sonho é ou será a realidade, em que mundo vivemos então? Na lógica das coisas futuras, porquê aquele seu sonho e não outro? Predestinação? – perguntava a si mesmo, sem se atrever a esboçar uma resposta.

 

(continua...)

 

 



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Sábado, 4 de Outubro de 2008
O Dever

quando fui carteiro punha as mãos

assim ao de leve nas cartas

e via lá dentro o açúcar das palavras doces

e a tristeza das letras desencontradas e tristes

 

com um sorriso aberto entregava umas

e as outras o dever dizia-me que as entregasse

 

quando fui soldado com soldados irmãos

entre mim e eles ouvia o clarim

que sempre me dizia que as alegrias

chegariam com o carteiro que também fui

 

e as tristezas todas ali no campo onde

poucos gritavam a sua condição de homens

enquanto outros me diziam saber por que eram soldados

 

com um sorriso aberto recebia uns

e aos outros o dever mandava-me que lhes desse tão só

a minha Paz

 

 

 



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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Desde que na água



depois do vento vieram as ondas e os adoradores do sol
levaram-no para longe da praia
para onde a água caía quando o mundo
ainda não era redondo e a terra estava no centro de tudo
e perguntaram-lhe qual o lugar onde tudo começou
respondeu que em todos
desde que na água


Egipto/Abril 08 - Algures a caminho de Nag Hammadi - Foto LNM

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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
A Palavra

Celebração Copta - Mosteiro de S. Bishoy/Sacristia - Cairo Março08 - LNM

 

 

lá fora o deserto

cá dentro os frutos do Homem

               a Palavra

               

nua

singela

 

 

Foto:Celebração Copta - Mosteiro S. Bishoy/Sacristia - Cairo/Egipto (Março08) - LNM

 



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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Tudo é de todos ... (X)

Ao perceber que o cavalo seria entregue ao dono no dia seguinte, João respirou profundamente e viu-se a passear com ele naquela noite. Por momentos pensou que o passeio seria uma prova talvéz muito dura para o animal. Seria ele assustadiço?

 

- A escuridão assusta até os homens mais crentes, quanto mais um cavalo... – disse em voz alta para surpresa do pai, que não entendeu por que ele o dizia.

 

Lembrou-se então de consultar o calendário da memória e percebeu que a lua estaria cheia. O céu azul claro do dia fê-lo presumir uma escuridão estrelada, sem núvens a impedirem uma lua luminosa.

A luz prateada da lua  cheia seria sua companheira, a mesma  luz fria das noites claras que ele sempre ouvia num som baixo e contínuo, escuro e baixo de mais para se confundir com a luz branca do dia, visível e alto de mais para confundi-lo com a escuridão das luas novas. 

E naquela noite, à sucapa dos pais, saíu com destino à ferraria. Encontrou o cavalo deitado no feno com que o pai lhe fizera a cama. Quando chegou perto do animal ele deixou-se estar tranquilo como até ali. Depois de alguma conversa e meia dúzia de  palmadinhas amigáveis levantou-se, resoluto. João abriu as portadas do estábulo, descalçou-se apressadamente e, assim mesmo, sentou-se no dorso nú, com intenção de partir para onde o cavalo o quisesse levar.

Foi uma correria doida em que a trote se libertava um arco-íris que permanecia visível no escuro e ofuscava os astros, enquanto a galope, ora cheirava a ervas silvestres que ele nunca vira por ali ora, subitamente, ao iodo das falésias longínquas sempre batidas pelo mar, sempre.

Nem o facto de ser noite, nem mesmo a penumbra das árvores deixaram que o passeio fosse menos alegre. Através dos sinais de  todos os seus sentidos ele recolhia da transpiração do cavalo uma alegria genuina: era uma criança que ali estava cabriolando com ele, num entendimento de uma pureza que só eles os dois entendiam e que ele, possuidor do dom da palavra, não conseguia encontrar nem uma para explicar o contentamento em que ambos estavam.

 

João perdeu-se. Sabia que corria sentado no dorso do cavalo, muito embora tivesse deixado de o ver. Apenas sentia os seus pés quentes e suados de tão apertados contra a barriga do animal, tudo o resto era a luz da lua, as cores do arco-iris,  as ervas  e o mar. Esteve assim perdido uma eternidade e, quando finalmente regressou, o vento morno festejava-lhe o rosto e os pés acalorados por tantas emoções.

Voltaram ao estábulo da ferraria pouco passava da meia-noite. Regressado a casa encontrou  a mãe sentada na cozinha bebericando um chá quente. Ele entrou e manteve-se em silêncio e a mãe, sentindo-se na obrigação de dizer o que quer que fosse, desculpou-se com a sopa do jantar, que lhe caíra mal e lhe fizera pesadelos.

Ele percebeu que a preocupação da sua velha era outra: dera pela sua saída e ficou com a preocupação das mães.

 

(continua...)

 



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Domingo, 27 de Julho de 2008
É aqui

 



era esta a Luz que eu pocurava...
encontrei-a longe,
longe das multidões.

onde as Rosas são a claridade perfeita.
e o azul está onde deve estar...

no infinito.
acima dos homens.

Na casa d'Ele.


Foto:Mosteiro Copta de S. Bishoy (Sec IV)-Cairo/Egipto(Março08)-LNM



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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Coisas simples

 

se eu tivesse o segredo das coisas mais simples

ter-me-ías dado à luz

 

mãe

 

como aquela árvore maestosa

que a chuva fez crescer comigo

 

eu teria crescido com ela e tú

ao longe terias visto o teu menino diferente

em cada estação e a nascer sempre

em março todos os anos

todos

 

ah!

quantas vezes serias  minha mãe?

e quantas vezes te chamaria quando te chamasse?

por que nome gritaria eu nas noites frias

quando o frio caisse rigoroso?

 



 



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Sábado, 7 de Junho de 2008
Tudo é de todos (IX)

O filho surpreendia-se com a desenvoltura com que o pai diagnosticava as maleitas de toda daquela fauna e os conselhos que distribuía pelos seus donos. Ao vizinho pastor recomendava:

-Tenha lá mais cuidado que a erva orvalhada desarranja as tripas do rebanho. Para a próxima não vá tão cedo para o pasto...

Ao dono da vaca que entendia que ela tardava em parir dizia, depois de manipulações na partes íntimas do animal:

          - Não está no tempo. Para a semana faça-lhe bem a cama todas as noites e aos primeiros sinais mande-me chamar, que o bezerro não está como devia estar.

Mas o que o surpreendeu verdadeiramente foi quando ao fim da tarde lhes trouxeram um cavalo quase vermelho, côr de fogo. O animal escorria ainda o suor de um dia de actividade aturada, equilibrava-se a esforço em três pernas e resfolegava, enquanto movimentava insistentemente a cabeça para cima e para baixo.

Depois de acalmá-lo, João desatou-lhe os nós que trazia na crina e no longo rabo. Afastou-se para apreciá-lo por inteiro e concluíu que aquela perfeição de formas não era habitual em animais de trabalho. A côr do pêlo refulgia sons  doces como os que ele costumava ouvir quando olhava para os troncos de madeira nua. O cheiro, esse, não era tanto o que o que seria de esperar, mas antes o da frescura e do sabor que perto mar se sente. Na verdade era quase espuma de maresia que aquele cavalo transpirava.

Fixou-o nos olhos e nenhum dos dois fugiu ao olhar do outro. João viu a dor que incomodava o animal e apercebeu-se que não vinha de dentro, porque tudo o que aquela pele rubra limitava respirava saúde. Ao dar-lhe uma palmada no flanco tremeu-lhe debaixo da mão o sangue puro que nele corria e viu confirmada a confiança entre os dois.

Estava assim, quando o pai se chegou à perna dianteira que o cavalo mantinha recolhida e, pondo a canela nos seus próprios joelhos, reparou numa pedra ponteaguda encravada entre a ferradura e o  casco do animal. Pediu ao filho que lhe passasse uma turquez e, um a um, retirou os cravos e a ferradura já muito gasta. Concluiu depois que tinha de calçar o bicho por inteiro, já que as restantes ferraduras não estavam também em condições.

Depois de retirados todos os ferros, Belarmino aparou-lhe os cascos e, ao verificar que não tinha à mão ferraduras da medida necessária,  arrependeu-se de as vender também a forasteiros que por ali passavam e que entendiam que a sorte os acompanharia se as comprassem à sexta-feira e se as levassem para casa segurando-as na mão esquerda. Crendices...

- Paciência! - Disse ele em voz alta enquanto coçava a cabeça.

Olhou para a claridade da rua, chamou uma criança que brincava por ali e mandou dizer ao dono do cavalo que na manhã seguinte o trabalho estaria acabado.

 

(continua...)



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Terça-feira, 20 de Maio de 2008
Tudo é de todos (VIII)

Para chegar ao quarto onde dormia a aventura foi a mesma que para sair dele, fora o cão que não se deu ao trabalho de sair da casota e resolveu ladrar e ganir mesmo de lá. Tal como os seus companheiros caiu em peso na cama, vestido e calçado, para um sono profundo. Afinal cansava-se mais do que eles porque vivia também o  cansaço dos outros.

Na manhã seguinte recebeu notícia de que os seus pais não estavam bem de saúde. Foi o padrinho que lho disse enquanto tomavam o pequeno almoço. A idade mais o rigor do inverno tolheram a saúde dos dois, de uma acentada. Não sendo por enquanto nada de muito grave e uma vez que os pais tinham vizinhança boa e dedicada, o padrinho aconselhou-o:

- Estás em época de exames e havendo certeza de que não é coisa de gravidade, deves redobrar os estudos para, quando entenderes visitá-los, teres o prazer de lhes dar boas notícias.

- Concordo. Mas fico, até lá, numa ansiedade que não sei se me proporcionará grande motivação... - respondeu .

- Não é mesmo nada de grave, a fazer fé no que me dizem. Está tranquilo e aplica-te.

- Farei o possível...- retorqiu, levantando os sobrolhos.

Durante a curta conversa ele sentiu a sinceridade do tio. Quando saíu para as aulas fê-lo com redobrado afinco e com a esperança de que as férias viessem rapidamente.

Em finais de Março pôde finalmente visitar os pais. A viagem pareceu-lhe muito longa e a estadia relativamente curta, porque duas semanas são muito pouco tempo para pôr em dia as conversas há muito acumuladas no diário.

Encontrou os pais na lida diária: a mãe nas tarefas caseiras, sempre a limpar o que imaginava estar sujo; o pai na ferraria, onde já a custo calçava os poucos animais que a vizinhança lhe levava. Os dois mais gastos pela idade, que parecia ter-lhes caído em cima desde que estiveram doentes. Recuperaram, é certo, mas tinham perdido agilidade em pouco mais de dois meses.

Num dos dias resolveu acompanhar o pai na ferraria. Foi pouco o trabalho de ferreiro, mas muitas as opiniões que pediram sobre o estado de saúde de animais que apareciam á trela dos donos. Ora porque o bezerro tinha perdido o apetite, ora porque a ovelha tinha a barriga inchada de tanto ar, ora porque a vaca tinha os cornos frios de febre. Belarmino, a uns receitava chá de silvas, a outros de arruda e assim por diante. Mas sempre terminava aconselhando sopas de cavalo cansado: pão, vinho e muito açúcar a todos promoveria as melhoras.

 

(continua...)



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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Tudo é de todos (VII)

Aquele dom desde sempre o atrapalhara e confundira. Por ele fugia a sete pés da miséria alheia porque a sentia como sua. Em silêncio chorava a dor dos outros e por isso saía a correr, como o diabo da cruz, das atmosferas tristes e mais comoventes. Mas quando estava em ambientes satisfeitos sentia, vindos de toda a parte, os prazeres desencontrados dos presentes, ao ponto de rir pelos outros e de amar com eles.

Era assim que se sentia naquela taberna. Os prazeres do riso das anedotas brejeiras que pairavam no ar apertavam-lhe o peito porque não podia rir de tantas brejeirices ao mesmo tempo. O humor mais fino e educado dos cavalheiros exigiam, por sua vez, um compasso de espera para boa compreensão. E a sua alma enchia-se de satisfação com a alegria e o bem estar de todos e,  como sempre acontecia nos momentos de maior intensidade dos seus sentidos, sentia uma necessidade urgente de se desligar, ainda que por momentos, de tudo quanto o rodeava.

Estava assim, como se não estivesse,  quando alguém, mesmo frente aos seus olhos, estalou os dedos para que acordasse. Foi então que sentiu que no andar de cima, espojado numa cama, um dos seus amigos se encontrava com uma rapariga de ocasião… e ele ali, atrapalhado, com dificuldade em esconder o prazer que sentia por eles os dois.

Era nesses momentos únicos que olhava para trás e compreendia que nascera como nascera porque trazia consigo, desde que fora parido, aquele segredo. Sabia-o claramente desde menino com entendimento e todos os que diariamente com ele privavam percebiam-no, ainda que ele nunca comentasse. Na verdade, os seus cinco sentidos eram mais que cinco: uns faziam o trabalho dos outros sem que a sua vontade os dominasse.

- Faz-se tarde – disparou, enquanto se levantava.

Dirigiu-se para a porta em movimento apressado. Um dos companheiros pediu-lhe que esperasse por uns minutos, ao que ele acedeu dizendo que esperava por eles fora de portas. Quando o amigo saíu pôde ver pela porta entreaberta que o mais ousado descia as escadas de acesso ao primeiro andar, ainda com o cinto desapertado, os sapatos soltos e passando as mãos pelo cabelo. Percebeu que o amigo, meio atrapalhado, ainda fez um aceno a uma moça que, ao cimo das escadas, lhe fazia adeus e encolhia os ombros.

De regresso a casa, esfregava as mãos para aquecê-las. Caminhava a leste de tudo quanto os outros diziam e riam, enquanto repetia em voz baixa para si:

- Regresso virgem... como saí...e daí?

Os outros, ao ouvirem-no balbucear, calaram-se. Foi o mais ébrio que lhe perguntou:

            - O que remois?

            - Trago, para além de tudo quanto já levava, mais uma dúzia de arranhões. Só isso – respondeu.

E continuaram de regresso a casa, rindo e cantarolando.

(continua...)



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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008
Tudo é de todos (VI)

Chegados ao destino, uma casa térrea que a escuridão quase não deixava ver, esperava-os  o ambiente acolhedor de um espaço pouco mais iluminado que a noite e uma dezena de mesas bem apetrechadas de gente e muito vinho. À entrada descobriram a cabeça, sacudiram a água da roupa e, só depois de habituados ao nevoeiro do tabaco é que os seus olhos descobriram os contornos dos outros convivas. Era uma mistura de cavalheiros, porque aparentavam estar bem na vida, com gente reles, de aspecto mal lavado e habituada a malfeitorias. O que a todos unia, pais de família e malfeitores, era a monumental bebedeira em que todos nadavam e os pirôpos que disparavam, em uníssono, sobre duas jovens que serviam as mesas.

Depois de breves momentos de espera sentou-se com os seus companheiros numa mesa que vagou perto da lareira. Serviram-lhes vinho tão morno quanto o ambiente. João levou o copo à boca e enquanto bebia misturaram-se os seus sentidos, ao ponto de não perceber se ouvia o sabor do vinho ou se apenas tomava o seu gosto. E se metia o nariz na caneca e aspirava o cheiro tinto do líquido, era então que lhe sentia o sabor e via os seus eflúvios dispersarem-se pelo ar, ao seu redor. Depois de meia dúzia de copos, já toldado pelo álcool, sentiu-se aconchegado no canto em que estava sentado. Era como se fosse espectador de muita coisa, quase tudo o que na taberna se passava.

De olhar vago deixou que o corpo também assim ficasse, e tudo sentia misturado, percebendo tudo da maneira mais completa que se pode perceber as coisas que acontecem. Estava ali como se estivesse de fora e, ao mesmo tempo, como se fosse tudo aquilo e tudo aquilo que percebia estivesse dentro dele.

Como sempre acontecia em circunstância semelhantes, arrepiou-se da cabeça aos pés e num sobressalto acordou, sem que tivesse a consciência de ter dormido um segundo que fosse…

Os companheiros de noitada cantavam alegremente as virtudes da noite, do vinho e dos amores menos castos. Ele, mais pensativo do que era costume, tentava perceber, como sempre fizera, o que se passava consigo. O vinho trazia-lhe à memória o segredo que desde sempre o acompanhou. O vinho trocava-lhe as voltas e tornava mais perceptíveis os mistérios que o acompanhavam desde que nascera.

(continua...)



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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
Tudo é de todos (V)

As aulas de matemática eram para os professores um quebra-cabeças sempre que o João resolvia dar contributos. Ficou para a história, era ele um adolescente de quinze anos,  a resolução de problemas matemáticos complexos pelo método da estética matemática, método por si inventado e que, apesar de todas as explicações que dava, apenas ele parecia  compreendê-lo. O método resumia-se a um olhar, tão penetrante quanto abstracto, que dirigia às expressões numéricas. E desse olhar profundo que perscrutava a essência dos números, a resolução surgia por mais complexos que os problemas fossem,   tão só por que a beleza e formosura das sequências lhe diziam ser aquela, e só aquela, a solução mais bela. Dizia então, com postura enigmática, que era ali que aquele número tinha de estar, e não antes nem depois. E, de expressão em expressão, os sinais de igualdade eram os fieis de uma balança que só ele via e tudo o que escrevia depois de cada um deles condensava, de forma cada vez mais simples, a beleza dispersa nas expressões anteriores: até à solução final a que, com um sorriso tão inocente quanto malandro, chamava de êxtase.

Invariavelmente a solução era a que ele apresentava, mas nem sempre eram claros os passos, quase de mágica, que usava. E quando o professor, transtornado por não entender aquela lógica tão pessoal, lhe perguntava: 

- Mas afinal o que é isso? És capaz de me explicar de modo a que eu entenda?

- Bom... é assim... – Começava ele por dizer e, depois, desfiava um rosário de explicações que a todos maravilhava e convencia, mas que terminava sempre com a simetria que ele achava que todas as coisas deviam ter. 

Para a história ficou também uma saída nocturna com um grupo de amigos, numa escapadela que a ausência do padrinho lhe proporcionou. Aconteceu numa noite de invernia escura e chuvosa, que mais convidava ao quentinho dos lençóis que a passeios com destinos pouco virtuosos.

Dois dos seus companheiros aguardaram-no numa das janelas das traseiras da casa, bem longe dos aposentos da mulher do padrinho e da governanta. Ele desceu a custo por uma trepadeira que ali crescia agarrada a uma grade de madeira. Lá baixo o cão de guarda ladrava e gania ao mesmo tempo, ora fazendo ameaças enquanto ladrava, ora abanando o rabo enquanto gania. O seus deveres de guarda diziam-lhe que devia mostrar os dentes, enquanto a intimidade com os rapazes fazia com que abanasse o rabo e pedisse desculpa ganindo. Quando João pôs o pés em terra firme o cão calou-se e, contada uma dúzia de  arranhões, partiram os três, ele meio coxo e os outros dois numa risota pegada, para uma noite que queriam memorável.

(continua...)



(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:25
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Tudo é de todos (IV)

Depois do baptizado o padre e o sacristão, com a pressa de irem às suas vidas, encarregaram-se de enxotar todos os presentes da igreja e, mal puseram os pés no adro, a porta bateu ruidosamente.

Para o almoço de celebração todos foram convidados e quase todos se escusaram com desculpas que foram piedosamente aceites pelo casal. O padrinho escudou a sua ausência em negócios que ao fim da tarde tinha de fechar na cidade. A madrinha vendeu a todos a ideia de uma enxaqueca que desde o dia anterior lhe atazanava a cabeça. Na verdade apenas a família mais chegada acabou por estar presente no festejo que se estendeu pela tarde e pela noite dentro.

Na mesa, tão só as coisas que a terra dá para alimento dos homens, pouca carne e muitos doces de mel. No ar a música de um acordeão tocado por um vizinho cego de nascença e, talvéz por isso, mais sensível ao que a vista não vê mas o coração sente.

 

 

A inteligência precoce de João  fez com que o padrinho o aceitasse em sua casa quando chegou o tempo dos estudos. Foi assim que muito cedo saiu da beira dos pais e rumou à cidade. Mais tarde diria que o fez não tanto por convicção no seu próprio futuro mas por necessidade de ver, como só ele sabia ver, o que era uma aldeia grande.

Na cidade, perdia-se na profusão de ruas e becos e dos pensamentos desencontrados de tanta gente. Não sabia o que era mas não desdenhava a urbanidade, porque junto dos outros se entendia a si próprio. Mas era quando regressava de férias que sentia a sua alma ancorada em bom porto. Os passeios que dava então pelas veredas faziam-no regressar ao tempo em que as árvores lhe davam as boas vindas e o ribeiro fervilhava colorido, coisa que só ele conseguia ouvir e ver.

 João cresceu e fez-se homem de hábitos invulgares. Todos os que com ele conviveram tinham histórias mais ou menos fantásticas para contar a seu respeito. Fantásticas, mas todas elas verdadeiras.

Os que com ele andaram na escola lembravam-se das brincadeiras em que ele levava sempre a melhor. Às vezes nem eram brincadeiras mas coisas muito sérias, passadas entre ele e os professores. Uma vez, tinha ele oito anos, na sequência de uma travessura ficou de castigo. A professora mandou que se virasse para a parede com a intenção de deixá-lo ficar assim por tempo indeterminado. A aula continuou com a professora a escrever no quadro rimas de números, porque a aula naquela manhã era de matemática. De costas para o quadro, e para surpresa só de alguns, ele foi dizendo tudo quanto a professora no quadro escrevia. Inexplicavelmente, de início também para ele, o ruído do giz sobre a ardósia trazia-lhe aos ouvidos os números e, quando a professora escrevia de forma mais suave, se o ouvido não conseguia perceber as contas ele descobria-lhes as cores. Cores que via soltarem-se da parede branca para a qual estava voltado.

(continua...)



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Quarta-feira, 26 de Março de 2008
Tudo é de todos (III)

Receosos, não fosse o diabo tecer-lhe a morte, os pais resolveram baptizar o rapaz tendo a pressa por conselheira. Na semana seguinte ao nascimento, ainda Maria não andava como dantes, e já Belarmino tinha agendada, para domingo, a lavagem da alma do pequeno. Não que acreditassem em pecados originais ou limbos eternos. Os seus receios eram, antes, fruto das impressões relatadas pelas comadres parteiras, que a toda a gente pediam segredo mas que a todos da aldeia  fizeram questão de descrever as circunstâncias em que o parto ocorrera, ao ponto de constar que o seu rebento era obra do demónio...

No domingo aprazado o casal, os convidados e a vizinhança estiveram presentes na missa das dez, para depois da qual o baptizado estava marcado. A missa decorreu como normalmente e só as preocupações de mãe fizeram com que Maria estivesse mais atenta ao seu rapaz do que às palavras do padre. Percebeu, mesmo assim, que o sermão daquele domingo remetia os presentes para o padre António Vieira e que estava repleto de referências às palavras de Santo António ao peixes. Falava de cardumes e de um mar fértil que, apesar de não ter dono, sempre teve quem o achasse seu.

Depois da prédica inflamada do padre lá se dirigiram para a entrada do templo. De acordo com a tradição a pia de água benzida ali estava à esquerda de quem entra, porque da esquerda se recebe, e era redonda, porque a infinitude é um atributo divino. Era uma obra de arte tão antiga quanto a memória da aldeia. Pedra trabalhada como filigrana, a destoar  da austeridade dos arcos quase nús do templo,  feita assim porque a arte é também o melhor dos sabões da alma.

As pais e a família mais chegada tomaram posição ao redor da pia. O padrinho viera da cidade, onde fizera amizade com Belarmino quando ele andou pelo serviço militar. Amadrinhou-o uma sua prima tão afastada quanto abastada e solteirona...

Era visível a felicidade dos pais quando a escuridão se iluminou com o acendimento da vela que a criança segurava na mãozinha trémula com a ajuda da mãe. Tirando a família todos os presentes pareciam estar ali contrariados, até mesmo os padrinhos, que aceitaram o encargo só para não fazerem desfeita. A contrariedade dos convidados tinha por companhia o olhar desconfiado do padre que parecia estar a fazer aquele baptizado a contragosto. E foi perante a felicidade dos pais e da família, a contrariedade dos convidados e a desconfiança do padre, que este exorcizou o pequeno e lhe deu o baptismo e o testemunho da fé, que os pais pediram por ele.

A tudo a criança assistiu num misto de curiosidade e de espanto. Os pais deram-lhe o nome de João e de cada vez que o padre repetia o seu nome, admirava-se porque a criança lhe respondia com um sorriso aberto, como se visse as cores do arco-íris diante dela. Todos viram também que a cada palavra do sacerdote o pequeno João respirava profundamente, como se quisesse sentir-lhe o cheiro e, quando finalmente a água cristalina lhe molhou a cabeça, a sua boca acompanhou o sabor fresco que a pele sentia.

(continua...)



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Quarta-feira, 19 de Março de 2008
Tudo é de todos (II)

Belarmino ferrava na altura uma égua de cor imprecisa mas de forma e feitio perfeitos. Tratava-se de um animal de contornos e comportamentos muito dóceis e ele atribuiu ao facto significado. Lavou apressadamente as mãos e a cara, tirou o avental ferrugento e pôs-se a caminho de casa.

As comadres do costume já tinham sido chamadas de emergência e quando ele chegou já elas tinham tomado as rédeas da situação. O lume estava desperto, a água em vias de ferver e vários lençóis estavam empilhados para o que desse e viesse...

Foi curta a hora. Sem esforço que se visse a criança lá nasceu. Foi com satisfação desmedida que as comadres disseram a Maria que se tratava de um menino. Foi de lágrimas nos olhos que ela pediu que lho dessem para aconchegá-lo ao peito e, como quem não quer a coisa, mirou-o com olhos de ver e concluiu a inspecção conferindo as mãos e os pés da criança, não fossem os dedos estarem alterados.

Recolhidas as sujidades e arrumado o quarto, a porta abriu-se para a visita do pai. Belarmino e Maria conversaram uma conversa que durou o tempo de muitos olhares e poucas palavras, tal era a alegria que lhes iluminava o íntimo.

Ao lado, quase recolhidas perto da janela e da arca, as comadres comentavam as impressões do parto:

 

- Estranho – disse uma – foi o primeiro que trouxe ao mundo e que não chorou quando aqui foi posto... a comadre viu como ele arregalou os olhos? Até parecia espantado! Não parecia?

- Sim – acrescentou a outra - arregalou os olhos, espantados, e depois deu aquele suspiro, que até me arrepiei...

- E aquela boquinha aberta? A comadre viu bem aquela boquinha? - remataram as duas em coro

  

Naquele momento as comadres encontraram os seus olhares e mistérios e ambas perceberam, vá-se lá saber como, que a criança verdadeiramente saboreara o acto do seu próprio nascimento.

(continua...)



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Terça-feira, 11 de Março de 2008
Tudo é de todos (I)

Era quase verde a aldeia esquecida onde viviam. Escondida pela verdura, só o fumo e o cheiro da madeira ardida deixavam pressentir o casario e a gente. No outro lado da encosta, a planície desde sempre fora o celeiro dos que ali viviam. Também eles eram dali. Mas não era deles a terra, mas eles dela. Isso mesmo conversavam nas noites quentes de Verão quando, sentados à soleira da porta, sempre diziam que não consideravam sua aquela terra, porque eram eles que lhe pertenciam.

Eram muito jovens quando uma gravidez inesperada os obrigou ao casamento. Ela com pouco mais que dezasseis anos e ele por aí, também. Fora no restolho, ao cair da tarde e depois da festa das colheitas, que uma conversa de olhares os aproximou. Foi no restolho que se entregaram...

 Enquanto ela sentia o seu corpo crescer, cresceu-lhe também a fé e a necessidade de uma confissão. Estava de três meses, nas suas contas, quando  entregou ao padre da aldeia a notícia do que fizera. O padre, que a tinha censurado de inicio por vê-la tão arredia da confissão, percebeu então os motivos da distância. E fez do casamento uma urgência. 

Passou o tempo sem que da gravidez resultasse qualquer nascimento. Apreensiva, visitou uma velha curiosa que lhe deu conta de uma meia dúzia casos passados na aldeia, em que sucedeu as coisas parecerem o que não eram.  

- Mas porquê? Como pode isso acontecer? – perguntou ela.

- A esperança tem destas coisas minha filha ... – respondeu-lhe a velha de forma enigmática.

            Ela reflectia no casamento apressado pelo padre e concluía, como toda a gente, que  a pressa nunca fora boa conselheira. Ele pensava o mesmo. Mas ambos, curiosamente, não davam por perdido aquele casamento de emergência. 

Continuariam um casal sem história digna de ser  contada, não fora o sucedido depois de trinta e cinco  anos. Era Novembro e a chuva e o frio teimavam em cair havia mais de uma semana. Estavam na cozinha e ao lume fervia o que seria uma sopa de entulho, quando ela se virou e lhe disse, enquanto passava a mão pelo ventre:  

- Belarmino?! Sinto crescer cá dentro não sei o quê. Aqui...

- Mulher!!! Sabes o que dizes?

- Sei...sei muito bem... – terminou ela pondo fim à conversa.

            Depois de tantos anos de angustiosa espera não lhe passava pela cabeça que a sua Maria pudesse estar de esperanças.  Ao fim e ao resto quantas mulheres dão à luz depois dos cinquenta?

            Belarmino viu-se assaltado pelos instintos da paternidade quando já tinha posto de parte a esperança de algum dia vir a ser chamado de pai. Da primeira vez via-se na condição de pai de uma rapariga que imaginava de laçarotes no cabelo e ao seu colo. Agora visualizava secretamente uma criança, apenas uma criança, cujo sexo lhe era indiferente.

Ela, por sua vez, sentia-se estranhamente calma para aquela ocasião tão singular. Via-se como uma mulher de cinquenta anos bafejada pela fortuna de ser mãe de sorte inesperada.

Desta vez não fora no restolho que se entregara, mas era no restolho que sempre se via quando Belarmino se aproximava pedindo, e dando, a ternura que sempre lhe dedicara com mais peso do que conta e medida.

A barriga avolumava-se a olhos vistos. Os sinais do seu corpo eram claros e sentia a vida dentro de si, em crescimento. Foi por isso que recuperou do sótão, pacientemente,  o parco enxoval que no passado longínquo tinha juntado com todo o carinho de adolescente. E enquanto redescobria as pequenas vestes prometeu a si mesma que não faria outras. No fim de contas aquele era para si o mesmo filho. O filho que tanto desejara e que o destino (ou teria sido o acaso?) achara prematuro pôr-lhe na vida.

Era sobre tudo isto que Maria conversava com Belarmino quando ao fim do dia ele regressava da ferraria, cansado de calçar as cavalgaduras da aldeia. E gastaram assim os meses da gestação até que, perto do meio dia em que a primavera chega, ela sentiu as águas escorrerem-lhe pelas pernas e mandou que dessem disso alarme ao companheiro.

(continua...)



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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
Flôr de anis

tão perto foste minha estrelada

e austera flôr de anis

 

tão certo assim tinha errante e afastada

a espera que ao longe cria sem querer

 

que além mas não perdidos via também

sinceros os teus olhos e o teu mosto perto de mim

no teu rosto de mulher





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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
Natal


diz-me o que não dizes

em silêncio

quando nem as palavras nascem

 

fala-me dele

da escuridão do som e do escuro das noites escuras

 

e também da luz

da noite grande luminosa

 

diz-me

diz-me que dezembro só é frio

quando queremos que seja frio

 

 





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Domingo, 28 de Outubro de 2007
A minha varanda

é da minha varanda que vejo tudo

assim tão pequeno e raso

lá baixo

 

não me lembro se foi nos livros que li

que a distância faz as coisas pequenas ao ponto

de não as vermos mesmo quando lá estão

sempre

 

presumo que é na minha varanda então

que nasce a distância dos caminhos

                    a dimensão das horas

 

o tamanho das searas maduras e o tempo

que leva no verão a ceifa

  





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Sábado, 6 de Outubro de 2007
Admirável mistério
o que tem de admirável o mundo
não é tanto o que eu não sei do mundo
mas o que eu não sei de mim
 
o que faz dele este admirável mistério
não é tanto ele
mas eu
 
porque sem mim nada seria surpreendente
nem misterioso
 
porque os mistérios do mundo existem
tão só porque existo
e me surpreendo




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Domingo, 23 de Setembro de 2007
A leste do mar tão largo
 
e eu faço adeus daqui
do lado de cá
da margem a leste do mar tão largo
 
e tu perguntas
porque são de pedra os castelos
e frágeis
refulgentes as rosas estampadas nos vitrais
 
seriam
 
de areia os castelos
e as rosas sempre mães 
se as pátrias fossem praias e a história contos
 
só de embalar
 




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Domingo, 2 de Setembro de 2007
Dois dedos de silêncio
conheço os que saem de viagem
ao fim da tarde
de visita ao jardim de todos
 
umas vezes passeiam-se outras a estimação
que têm pelos animais que guardam à trela
em casa
onde dizem que moram
 
esperam as horas sentados ao redor das fontes
feitas para estarem ali
            onde alguém quis
 
quase sempre conversam uns com os outros
sobre tudo o que é importante para cada um
            o tempo que fez naquele dia e que fará no seguinte
            as insónias do calor da noite passada
            a importância das bagatelas
 
dois dedos de conversa
e regressam a casa como regressarão ao jardim
no dia seguinte
 
e conheço os que entram de viagem
que não saem que se veja mas que vão sempre
a fontes onde só eles sabem ir
e a pomares onde nunca chove porque chover é triste
 
dois dedos de silêncio a eternidade
e regressam do coração
 
regressam a si donde nunca saíram




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Segunda-feira, 30 de Julho de 2007
Noutras circunstâncias
1 . Noutras circunstâncias seria padre:
                    condutor de almas tresmalhadas,
                    distribuindo penitências pelos pecadores confessos.
 
2 . Noutras circunstâncias talvez fosse o Cristo:
                    tresmalhando almas, desarranjando certezas,
                    dando penitências aos bem comportados.




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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Antes e depois
não sei porquê
não sei mesmo
mas sempre vi o tempo numa circunferência
em que o futuro está ali
antes do passado e depois do presente
 
e se na linha está o tempo tenho do círculo
a ideia do mundo que dentro da fronteira
olha para cada um dos seus pontos
e em todos e cada um encontra
o que está depois do antes
e antes do depois
o presente
 
também não sei porquê
mas não consigo imaginar o que é
e o que vai para além do traço
 
imagino que seja maior
mas não imagino o que possa ser
 
o futuro pode mesmo estar à mão de um passo
cada vez mais pequeno porque o passado
cresce
cresce sempre
 
então
ou a circunferência alarga e há tempo que é criado
do nada
ou o passado invade o futuro
e eu não sei onde pôr o presente
 
é certo que tudo tem só a importância
que lhe damos
e pode até não ser importante para outros
a ideia que eu faço do tempo
e também do mundo
 
mas porque tudo tem tão só a importância
que tem
sem tempo não tenho o que dizer
e não sei se condeno o poema ou se ele
verdadeiramente nasce




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 15:24
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Domingo, 10 de Junho de 2007
És tu

pastor do Sol
ferreiro dos arados da Terra
 
és tu
 
é o teu perfil que leio
no contorno geométrico do pólen
 
sempre que anuncias os artesãos
da primavera




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 01:45
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Terça-feira, 15 de Maio de 2007
Sementes
 
 
é verdade que ninguém morre
nunca
 
regressamos apenas e ficamos
pastores
 
e as tuas e as minhas mãos sementes
que o cio da terra nos pede




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:29
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Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
Desejo
há-de sorrir o trevo
sempre que um desejo se levanta
no corpo de quem passa
 
hão-de as tentações
ao sol
como as campainhas ondular
 
incandescências




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 15:50
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2007
Como podem?

só estou perto de tudo quando amanhece

perto de tudo mesmo que não queira

 

e então

também escrevo cartas de amor

poemas brancos sem linhas que me levem

onde todos vão

 

não fecho os olhos por acaso

só porque estou e não quero ir

 

o acaso não tem lugar aqui

nunca teve lugar onde estamos

nunca esteve para estar connosco

 

e dizem que os rumos de quem quer

são ligeiros

sempre ligeiros

 

como podem?





(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:02
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Domingo, 8 de Abril de 2007
É aqui
é aqui que venho 
quando me procuro
 
o cenário que vejo primeiro é branco
e só depois
 
o mar
a terra
o mundo
 
como argila nas minhas mãos
 




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 01:25
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Quarta-feira, 21 de Março de 2007
Deixo
deixo em testamento a tua sombra
e só ela
aos que virem na penumbra dos teus ramos
o abrigo
 
aos outros o Sol
que dorme enquanto durmo
no além submerso que avisto
 
e aos restantes o resto
que é tudo o que diz o poema
no dia do achamento
 
 
(No dia da árvore, do sono e da poesia)




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 22:46
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007
Dito assim
 
dito assim parece simples
porque as palavras se despem e humildes
vestem as frases que escrevo no poema
as horas que escrevo na cidade

ainda hoje não sei porque é preciso
explicar tudo
não sei porque vejo os dias quase todos os dias
sentados na falésia à minha espera
acossados pelo fascínio do sal das ondas
iludidos
iludidos

sabes?

nunca me perdi na rua como no tempo
nunca me perdi no tempo como nos instantes
e nunca o acaso me olhou da praia e desejou
que eu fosse além do destino profundo da espuma
leve
leve
 

(Republicação)
 



(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 23:42
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
Dos amores impossíveis
 
tranquila, muito serena e a recato estava
doutros animais a redonda e gentil galinha.
 
e seu dono que ao lado do galinheiro tinha
animais de pelo, reunidos em manada,
tranquilamente seu espirito mantinha
e, dia fora, outros rebanhos guardava.
 
pertinho da capoeira, à solta quase sempre,
um coelhinho branco de pelo e de orelhas,
farto de privar com três dúzias de coelhas
caiu de amores pela galinha, perdidamente.
 
e num daqueles dias mornos de primavera
em que os corpos pedem festa e muito calor,
de penas e bico ao vento estava a galinha
 
quando afoito e veloz lhe saltou asinha
o coelho tresloucado, que nem uma fera:
 
-Óh loucura! Óh tardio amor, insano desejo!
 
vinte dias depois após noite de cacarejo
sem dor, em boa hora, sem mágoa nem alaridos,
 
deu a galinha à luz dez ovos de Páscoa, coloridos.
 
 
(Aos meus amigos foliões de Torres Vedras)




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 00:49
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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
Vénus


nas marés imersas no perpétuo
transito de Vénus
 
sentes a bombordo na espuma
o rosto incompleto da praia
 
imagina só
 
imagina se no perfil do escuro incendiado
todas as estrelas fossem da manhã




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:51
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Domingo, 7 de Janeiro de 2007
Chá

 
I
 
e i a as a   o ai   a á ua e e e
e o a o   o u e ei a a   ai
a   o ao e
 
e u e a a e a a a o o o   as   o e a
ã
 
é o   á e e i e ue a eu e
a    e i o   á e a a   e o o e a
 
i ia
 
II
 
r t r v s s v g s d   g   f rv nt
n v p r    l m d x v s c r
s c ns nts
 
f m g v p l c s     d r d s pr m ss s
v s
 
ch d g ng br q    q c
m s pr f r ch   d   s s d b rb l t s
 
d z s
 
III
 
retiravas as vogais da água fervente
e no vapor do lume deixavas cair
as consoantes
 
e fumegava pela casa o odor das promessas
vãs
 
 
é o chá de gengibre que aquece
mas prefiro chá de asas de borboletas
 
dizias




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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007
Recomeço

em cada recomeço lá estão
as tecedeiras
os fios
 
e nós ali
sentados a ver como se faz
calor
  
e é o linho virgem que revemos nos teares
 
que Janus tece




(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 20:46
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006
Todo o ano
durante todo o ano colecciono
palavras, na sacola dos meus silêncios.
 
e no dia da noite mais longa
sento-me cá fora, como hoje,
 
e por esta altura, só por esta,
corro no escuro, desato aos gritos e espero
 
que outro dia chegue




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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Preto no branco
ontem
parei de um lado da rua e vi-me no outro
e de ambos os lados fiquei
na esperança que a esperança caísse
 
eu sei que nem sempre me vejo assim
de cá e de lá separado pelo mundo
nos dois lados do mundo e separado por ele
 
sei que nem sempre me reparto como escrevo
porque nem sempre a tinta é negra e o papel assim
 
porque o preto no branco e o branco no preto
podem ser o caminho das metades
mas não do meio




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Domingo, 5 de Novembro de 2006
Só eu sei

 

sento-me à soleira do teu corpo

 

quieto na vontade

e meigo nas ambições

 

encosto-me ao berço do tua voz

 

ao teu peito

de murmúrios tenros

 

e só eu sei

 

só eu sei

como adormeço

 

(Republicação)

 





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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
No poente
eles descem
 
mas tu vais dizendo
que os mares andam rios acima
e acabam onde morrem as nascentes
 
lá longe
 
no poente dos olhos de água




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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006
Basta-me!
pudera eu despir-me aqui perante vós
que mesmo nu continuaria adornado
desta minha condição humana:
pedra e força bruta.
porque as faces mesmo lisas não deixam de ser rudes,
nem as arestas por mais perfeitas deixam de ser ríspidas.
 
pudera eu vir aqui fazer-vos
a critica da convicção pura
e falar-vos de tudo quanto sinto mas não digo.
 
pudera eu vir aqui expor-vos os argumentos
das razões que não sei se tenho
e de todas as opiniões que pari desde que me entendo.
 
pudera eu ser um homem sempre justo…
que as outras imperfeições carregá-las-ia de bom grado
no saco da minha consciência.
 
pudera eu dizer tudo isto e ser entendido,
e não estaria aqui convosco.
 
mas quis a fortuna que o Grande Arquitecto
permitisse que, no prefácio da narração dos tempos,
os homens nascessem brotando do chão.
 
quis Ele que na Idade do Ouro o Sopro Criador
se confundisse com as criaturas,
que o Homem fosse o guardião das cores,
o zelador de todos os ocres e pigmentos.
 
quis Ele dar ao Homem a sede autentica mais a divina figura.
também a ousadia, fundamento da Liberdade.
 
quis ainda a sorte que Prometeu nos desse o lume divino,
e que a caixa de Pandora, senhora de todos os dons,
se abrisse entornando contratempos.
 
desde então as ideias são como alaridos e esgrimas
e as frases soam a desconfianças bastardas.
rebuscamos no campanário das vozes e das prosas de Babel,
a Palavra que um dia dará forma à doutrina do entendimento humano.
catamos na multidão dos vocabulários,
nos mistérios dos catecismos,
no frágil talento dos nossos rudes critérios:
o Sopro Divino, Grande Alento, brasas de Luz a partir do nada;
a Harmonia das Esferas, caroço das perfeições possíveis;
os pedaços, na miragem de chegar ao Todo colando as partes.
 
dói olhar para um homem, vê-lo só a ele, e nem sequer todo...
dói procurar nas Borras da Fundição, olhos que vejam como os nossos...
dói encostar o ouvido ao búzio e não adivinhar o sabor do sal...
dói tanto...
 
mas no dia em que o céu se partir,
as tábuas da mecânica do mundo hão de peregrinar.
nesse dia estarei convosco, para guardá-las.
 
Basta-me!

(Republicação)



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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
Não sou de cá...

não sou de cá, dizes-me tu.

 

não és.

não és mas sabes

que todos os rios conhecidos moram aqui...

 

onde?

 

aqui. na fonte dos caminhos.

         

        no teu peito...







(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 22:56
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006
Então sim
no pousio das incertezas
na cegueira dos murmúrios
 
então sim
 
o silêncio
 
 
(Boas férias para todos. Voltarei no final de Agosto...)


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 13:01
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Domingo, 23 de Julho de 2006
São nódoas

ouço-os

 

e sempre te digo que os tambores

quando rufam assim são nódoas

 

não pode ser este o acaso das tuas mãos

 

não podes cegar a virgindade das bandeiras assim

com este sono intranquilo



(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 14:17
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Sexta-feira, 7 de Julho de 2006
Rosas maduras

 

canto Saturno mais os grãos que deitou

ao chão do Olimpo e às brisas nocturnas

onde me deito

 

guardo a chama que Júpiter quis

das Ninfas que o guardaram por Cibele

 

e o pólen que regurgitou dos seios túrgidos

das amas que lhe deram leite

e mel de rosas maduras



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Segunda-feira, 26 de Junho de 2006
Irra!

a dramática lógica da batata

mata a isoiética parabólica

da pata que pariu a acústica

elíptica da fonética marata

 

a álica ceifada fica erecta

encafifada no ameno feno

no pó da mó da atafona

 

e o moleiro de quiriotecas

(que fazer farinha é ritual)

abre portas frestas e janelas

 

e de malga de intrita na mão

assim grita

 

irra!

Irra!

 

que entre catacáustica luz

que ilumine a dramática lógica

da batata que pariu a catacústica

de que tanto se fala

 

e ala

ala que se faz tarde

 

irra!



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Sexta-feira, 16 de Junho de 2006
Demora

não te digo hoje

 

não te digo amanhã porque do tempo

tenho a leitura das palavras

 

cada letra uma espiga só uma

e em cada poema a demora das searas




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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006
Juno

colho a graça das perfeições nuas

porque as formas são apenas formas 

na cal dos muros

 

e na penumbra da verdura que deles cai

está Juno deitada na brancura de todas as cores

 

que o branco tem

 



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Segunda-feira, 22 de Maio de 2006
Há cidades onde

sempre que a noite se cala

quando cresce o sol

e a lua desce

 

há cidades onde

os cães passeiam os donos

e correm do futuro para o passado

as águas que o tempo dá



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Quinta-feira, 11 de Maio de 2006
Incenso

não me peças

de regresso o sândalo

 

não me queiras

âmbar

 

de regresso ao leito

gosto de trazer os rios

 

e o incenso

da rosa



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Segunda-feira, 1 de Maio de 2006
Maio

em que outro mês caberia

um dia só

do trabalho?

e do silêncio?

 

que outra lua seria

o branco de todas as noivas?

 

que outras cores se não todas

para maio

das papoilas?

 

de que outra mãe serias filho

Hermes?



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Segunda-feira, 17 de Abril de 2006
Às vezes

às vezes pergunto ao espelho
o que está depois dele

tudo

e ninguém que não esteja comigo aqui
neste lado como no outro

em cima
como em baixo





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Quarta-feira, 5 de Abril de 2006
Simplesmente...
escrevo na fronteira marítima do céu
na fronteira celeste do mar

escrevo no fio dos horizontes
nas linhas terminais que avisto
nos caminhos intermináveis que encontro

simplesmente escrevo
escrevo simplesmente


(Ao meu amigo Carlos Martins)

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Terça-feira, 28 de Março de 2006
Na floresta


misterioso é o tempo
das águas matinais e do sol tardio

misterioso é o tempo de março
insondável o silêncio
em que vivem
no mês de todos os recomeços

calam-se indiferentes
ao que pergunto
ao que respondo

mas pressinto que me sentem
pela sombra rasa de afectos








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Terça-feira, 21 de Março de 2006
SONHO GENUINO


os meus dias eram todos os mil filhos do Sono
e as minhas horas irrompiam aladas
como o vento irrompeu do odre
enquanto o herói se entregava a Morfeu

não sei qual dos companheiros enxotou o destino
quando desapertou o cordel das ventanias

mas ainda hoje as vejo errarem por direcções imprecisas
sempre contrárias ao sonho genuíno de Ulisses






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Domingo, 12 de Março de 2006
De nada
aqui
onde o cheiro do alecrim
não chega à resina livre das estevas

sentado no lugar de todas as imperfeições
em março mês dos equinócios que reconheço
tenho a esperança dos amores perfeitos
e quero respirar o perfume dos lírios
a eternidade

aqui
onde cultivo o que não vejo disseram-me
que os meus sonhos existem por minha causa
e que no jardim onde semeio a vontade
os canteiros não são margens de nada

de nada



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Quarta-feira, 1 de Março de 2006
O banho
é um fio ligeiro
uma linha cristalina que exala calor e espuma
que transparecem no ar

é o feitiço dos rios que em casa me chama

os dedos passam leves
quase escrevem na humidade

assim me dispo
e assim despido entro devagar
e docemente a água me veste










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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006
Animais de estimação
tenho um cão velho e louco
louco de paixão por gatas

bem lhe digo que no mundo
cada um deve estar no seu justo lugar
os cães no mundo dos cães
as gatas no mundo dos gatos

bem lhe digo e quando lhe falo
olha-me com aquele olhar doce que sabe pôr
e vai miando as suas mágoas de cão
porque as gatas querem gatos
e cães não

tive antes deste cachorro
uma gata persa exuberante
olhos azuis
pêlo cinza bem macio

fora eu gato seria ela a minha gata
fosse eu cão e seria dela
seria minha a sua pata

bem lhe dizia que no mundo
as almas gémeas das gatas são gatos
e das cadelas os cães
olhava-me com aquele olhar triste que sabia pôr
e gania as suas mágoas de gata
porque os cães se ficavam pelas cadelas
e por ela não
...
tenho um cão velho e louco
tive uma gata persa exuberante
e hei de ter um periquito






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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
Escriba

olharás
olharás sempre a mão do escriba
o movimento imperceptível dos seus dedos
como da primeira vez

ele desenha
desenha-te as palavras e depois delas as frases

o contorno das penumbras que ditas






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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006
Que te digo?
se me falas da efabulação dos dias
se os escreves em páginas verdes
em folhas que nunca vês maduras

se me dizes que são já tardias
as cores
a tinta das tardes puras
que sempre trago
que sempre levas e não dispensas

que te digo?

ah! se as estações fossem todas só uma
aquela em que o fresco halo da manhã
luminoso se desata


Também no Incomunidade


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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2006
Utopias
fermentos
utopias

à noite
quando a humidade condensa cristalina
e no ar respiram escuras
as ausências do verão

agora
neste mês em que Janus transpira
o tempo ainda verde e o vinho
ainda tão novo






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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006
Mozart - 250 anos


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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
No escaparate

no escaparate
tenho os evangelhos longe dos autos de fé
arrumei-os com os catecismos
justamente nas prateleiras mais castas
vigilantes
por cima a patrística e por baixo a escolástica
em frente os delírios apócrifos
e as canonizações alquímicas








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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2006
Escritas vadias
sim
só revelo as palavras se chegam
ao planalto dos papeis
como as barcaças que seguem
ao sabor das Tágides

porque as escritas vadias
são revelações do corpo-chão

escrevemos
e destapamos a Luz




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Domingo, 8 de Janeiro de 2006
Caldo puro
em menino

disseram-me que ser pequeno era condição
da idade
e que um dia seria grande
se fosse

o meu tamanho era o que era
como agora é

e ao almoço na mesa havia sempre pão escuro
quase fatias de pão triste
e davam-me sopa de caldo puro
onde eu me via como ao espelho

menino






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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005
Quente
não quero as nuvens

não quero a chuva
nem o vento
nem o frio

dêem-me o céu
só o céu

deixem-me no azul

assim tranquilo
assim doce

quente






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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2005
Dom das lágrimas
que noite é esta que me acontece
cá dentro?
que ânimo é este que me entristece
o lume?
o alento?

que doçura me dás que não distingo
o dom das lágrimas
da tristeza?
tranquila e doce
em que adormeço?

que frio é este que me acalma
e consola?

que paz é esta que reconheço
no açúcar louro da madrugada?
no perfume do orvalho?
na geada?

que paz é esta?



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Domingo, 11 de Dezembro de 2005
Tão cedo
dizem que a eternidade é longínqua
que está depois do fim
além

dizem que nem tudo começou no princípio
mas antes disso
primeiro

e eu
que tão próximo não vejo
o que só a distância mostra

desembarco antes de chegar
tão cedo
que nem mesmo o sono me leva
onde me deixas de regresso




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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005
Artífices

na minha rua
todas as pedras são como se fossem do rio

pelas margens
quando de olhos na terra regresso à noite
ao calor
correm à minha frente os artífices

juntam-se em oficinas de perfeição
e devagar
com todo o vagar que a água lhes dá
trabalham os vértices até aos seixos
com alfaias de tempo

de chuva
de vento
de horas



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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005
Construam-me o corpo
 

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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005
Intocado

existe
intocado pelos sentidos um mundo
latente

que permanece ao meu lado
quando o esqueço

que me guarda o silêncio
se canto

que me pede que o sonhe
sempre



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Terça-feira, 15 de Novembro de 2005
Harmonices Mundi

Corre melodia corre
em busca da harmonia perdida.
Busca que busca
em águas turvas a doce cantiga,
o baile vítreo,
o rodopio da água límpida.

Corre que busca.
Busca que busca
o ar, o mar e a vida.
O batuque, os sons, os tons da verde cor antiga.

Corre melodia busca,
busca a perdida harmonia.

Que busca busca
no baile as turvas águas, a vítreo doce cantiga
da água em rodopio, límpida.

Que busca busca,
corre a cor da vida, o tom
da doce rosa

florida.





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Terça-feira, 8 de Novembro de 2005
Isóbaras


isóbaras
desenham as linhas imperfeitas dos corpos
na sombra dos lençóis onde caímos

pertencem-nos
são nossas as rosas e o pão
do regaço dos milagres onde sempre nos deitámos

sim
são nossas as colinas
os relevos que na penumbra desejamos

de manhã



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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005
Pode parecer
pode parecer redundante musicar um poema


porque a poesia é redundância musical

desnecessária e inofensiva

dispensável e escusada

mas não é








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Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
Pax
do ponto ao traço
da pedra à catedral
a distância

da terra chã
os traços
plano
aprumado

para que os esquadros da cruz se desenhem
e a Pax Profunda dos justos se leia




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Domingo, 16 de Outubro de 2005
Dito assim



dito assim parece simples
porque as palavras se despem e humildes
vestem as frases que escrevo no poema
as horas que escrevo na cidade

ainda hoje não sei por que é preciso
explicar tudo
não sei por que vejo os dias quase todos os dias
sentados na falésia à minha espera
acossados pelo fascínio do sal das ondas
iludidos
iludidos

sabes?

nunca me perdi na rua como no tempo
nunca me perdi no tempo como nos instantes

e nunca o acaso me olhou da praia e desejou
que eu fosse alem do destino profundo da espuma
leve
leve



{aos amigos do CORAÇÃO - assim mesmo com maiúsculas - que vão tendo a paciência de me ler}

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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005
Se espreitas


já é tarde para bater à porta
tarde de mais para entrar

cá de baixo
conduzo os meus olhos à janela
e vejo-a escura de luz
na parede branca

mas se espreitas pela moldura
os teus olhos acendem noite fora o teu retrato
que se debruça



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Domingo, 2 de Outubro de 2005
Até que
deixa-me acordado no restolho macio
até que o outono encharque os torrões
e a chuva solte o cheiro da terra

assim o sabor da noite é mais sabor



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Sábado, 24 de Setembro de 2005
Como sempre

navego em terra
seguindo faróis de marear

desenho no chão da tua pele os caminhos
e abalo assim

perdido como sempre



(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 23:57
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005
Tanofárion/Fontanário

eta`1,dumsoerer
vcaosabcdfghim
esmenrnonate2i
rsemtnd~hinobcr
toe~aor.deusnar
noteq?eqraepr~i
sm,erdutod´eore
oearerneoa.ojoe
egea a´errsaietd
opres´tntcd.seria
a´~rrintsesaioae
aosaseasaers,ra


1
sedento
abri a torneira do fontanário.
saíram turbilhões de letras, sinais e números,
que me encharcaram as mãos de segredos.

2
a esperança do trigo é cair à terra,
a do pólen correr ao vento.

que desejo terão as letras?



(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 09:40
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Domingo, 11 de Setembro de 2005
Em segredo


nas tardes de primavera
com o sol morno e o céu rubro
eu corria para ti e sentava-me no degrau
à tua beira

encostava a cabeça ao teu peito
e tu sorrias e falavas-me
da imensa tristeza
da esperança dos desertos

dizias-me que não havia fogos despertos
que ardessem no peito mais do que os nossos
dizias-me que todos os mistérios eram só Um
e que nem toda chuva do céu
seria tão nossa como nós

e eu não falava nem dizia
ouvia tão só os sons escondidos em tudo
e em segredo construía cidades

com a tua voz




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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005
Ao acaso
I

se nos perdemos e deixamos
que a voz da nossa rua nos deslumbre

se vamos ao acaso nos passeios
e sentimos que alguém troça e ri de nós

é a cidade que navega ao sabor do rio
enquanto o rio se derrama pela foz

II

se nos perdemos e deixamos
que a voz da nossa rua nos deslumbre

se vamos ao acaso nos passeios
e sentimos que alguém troça e ri de nós

é Lisboa que navega ao sabor do Tejo
enquanto o Tejo se derrama pela foz


(Poema dedicado ao Café Lisboa - Link à direita)



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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2005
Havia tudo e ninguém
a Paz vivia serena e escura
e fez-se tudo
depois da Luz

debaixo da claridade
cresciam searas mas não se faziam as colheitas

havia tudo e ninguém

e o Arquitecto traçou em risco austero
todos os que viriam até ao fim dos tempos

e deu aos primeiros a Terra

na raiz cada um era príncipe de todos os reinos
as mãos coavam os feitos e os dias
e todos os idiomas eram vozes de uma Irmandade
missionária

até que chegaram os contadores de pomares
e de frutos alheios

(Para A.G. do “DE GÉNESE” - link à direita)

**Obrigado Gina Pedras pelo apoio. Com música sempre fica melhor!**
**Boas férias para todos. Vou estar de pousio até ao final do mês**


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Quarta-feira, 27 de Julho de 2005
Aqui há tecto



quem me dera longe
no limite

quem me dera partir
para dentro de mim

aqui há tecto




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Quinta-feira, 21 de Julho de 2005
Eles saltam saltam

um a um e também aos pares
aos trios e quartetos
correm pelo fio que separa o meu sono da noite

um depois do outro conto todos
e cada um dos carneiros do rebanho

eles saltam saltam
às vezes riem
às vezes dançam
e caem de sono sempre antes de mim

também já contei camelos de uma e duas bossas
grãos de areia estrelas e histórias
mais todas as folhas verdes que se podem contar
e todos os peixes do mar

mas não há como os carneiros não
para cuidar das minhas insónias
de verão





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Sexta-feira, 15 de Julho de 2005
Rezam os papiros
Rezam os papiros que no antigo Egipto
o poder era siamês da sabedoria.
A vida na terra seria uma projecção da vida celeste
e aos homens competia tudo construir
à imagem do paraíso.

Rezam os papiros do antigo Egipto
Que o Rei era Deus em pessoa.
Mestre dos celeiros, dono de toda a Terra,
de todos os bens e de todas as vidas,
roubar, matar, enganar, era ofendê-lo.

Da sua divina sabedoria brotava uma justiça
em que era sempre juiz em causa própria.

Mas esse é um pormenor de hoje.






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Segunda-feira, 11 de Julho de 2005
Amanhã, falaremos de Amor


não me demoro nem canto
nos caminhos da cidade
quando a ternura profunda não cresce
nem floresce o mel nas acácias

amanhã
amanhã falaremos de Amor

mesmo que não me digas
onde está a inocência onde
que não transparece nem fecunda
os corações


(às vítimas de Londres)



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Sexta-feira, 8 de Julho de 2005
Quem sabe?

Quem sabe se a essência da verdade não está
onde todo o desconhecimento se funde?
Lá, onde a primeira causa e o eterno retorno conversam.
Aristóteles e Nitzsche, ambos de joelhos e de lupa na mão,
procurando,
procurando.
Como eu, procurando...



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Quarta-feira, 6 de Julho de 2005
Contigo ao vento
enquanto caio nas memórias
uma névoa de sal faz-te orvalho no corpo.

e tu insistes...

entras pelo mar e as ondas,
como dunas,
fragmentam-se contigo ao vento.






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