Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Diz-me... (I)

 

O azul-negro da indumentária contrastava com o xaile vermelho vivo que à pressa lhe emprestaram para cantar aquele fado. Sempre gostara do improviso e a espontaneidade assaltava-a também nas ocasiões em que, espectadora dos fados dos outros, assistia tranquilamente aos trinados, lamentos e guitarradas dos curiosos, fadistas vadios como ela.

 

Tinha para essas ocasiões três ou quatro fados de cartilha, que ao longo dos anos foi apurando na garganta e nos sentimentos. Resistia sempre ao primeiro impulso, que sentia quando o pé direito, quase contra sua vontade, marcava a cadência possível, escondida mais nas palavras que na musica que escutava. E quando alguém perguntava se entre a assistência havia quem quisesse dar um ar da sua graça, ela saltava então para junto dos guitarristas e violas, dava-lhes duas ou três dicas mais o tom em que se sentia confortável e, depois de pedir um xaile emprestado e rompido o silêncio com a musica frágil dos instrumentos, fechava os olhos e soltava a voz umas vezes mais cristalina que outras, conforme o tempo, a disposição e o sentimento da altura.

 

Pouco lhe interessava se o fado vinha das lamentações dos escravos ou das profundezas dos desertos africanos. Bastava-lhe dar por si possuída até à profundeza da sua alma, por sonoridades que lhe saíam de dentro do peito e a arrepiavam de ponta a ponta como se apenas ela existisse enquanto cantava. Ficava então só consigo mesma e com a impressão de que era tão só para si mesma que entoava as sílabas que arrastava à procura do melhor tom para sair delas. E enquanto não rematava a frase arrastada, as guitarras e violas esperavam dela um sinal quase imperceptível que costumava dar com os dedos da mão direita enrolados no xaile. E ao sinal os instrumentos e ela continuavam o fado com mais determinação, até ao arrebatamento final. Era então que batia o pé direito com afinco para que a voz se lhe soltasse mais firme, como convinha em qualquer ponto final.

 

Depois dos aplausos que mesmo antes de terminar se soltaram pela sala e de vislumbrar, quase no escuro, espectadores que, de pé, gritavam de forma sentida a sua condição de fadista, ela agradeceu para a penumbra da sala, onde presumiu pelas velas acesas em cada mesa, estarem perto de uma centena pessoas a escutá-la. Depois do agradecimento olhou para o tecto da sala e agradeceu a quem a conduzia lá de cima. Era uma coisa muito sua, porque quando caía em si e se entregava toda ao fado, sentia sempre ali a mãozinha de alguém, que presumia serem os seus antepassados a conduzirem-lhe a voz.

 

Depois desculpou-se para não cantar mais, com a voz cansada pelo fumo que pairava no ar. Mas não era só do fumo…


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:33
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

Os outros

 

 

é do outono

a chuva mansa que molha os tolos

o sorriso indefinido que nos surge nos lábios

quando molhados

 

porque tolos são os outros

e nós os sábios

 

é do outono

o sol rutilante acima das nuvens

e nós na penumbra rasa do chão

apressados com os dias

 

porque tolos são os outros

nós não


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 15:41
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