Sábado, 25 de Dezembro de 2004

Basta-me!

 

pudera eu despir-me aqui perante vós

que mesmo nu continuaria adornado

desta minha condição humana:

pedra e força bruta.

porque as faces mesmo lisas não deixam de ser rudes,

nem as arestas por mais perfeitas deixam de ser ríspidas.

 

pudera eu vir aqui fazer-vos

a critica da convicção pura

e falar-vos de tudo quanto sinto mas não digo.

 

pudera eu vir aqui expor-vos os argumentos

das razões que não sei se tenho

e de todas as opiniões que pari desde que me entendo.

 

pudera eu ser um homem sempre justo…

que as outras imperfeições carregá-las-ia de bom grado

no saco da minha consciência.

 

pudera eu dizer tudo isto e ser entendido,

e não estaria aqui convosco.

 

mas quis a fortuna que o Grande Arquitecto

permitisse que, no prefácio da narração dos tempos,

os homens nascessem  brotando do chão.

 

quis Ele que na Idade do Ouro o Sopro Criador

se confundisse com as criaturas,

que o Homem fosse o guardião das cores,

o zelador de todos os ocres e pigmentos.

 

quis Ele dar ao Homem a sede autentica mais a divina figura.

também a ousadia,  fundamento da Liberdade.

 

quis ainda a sorte que Prometeu nos desse o lume divino,

e que a caixa de Pandora, senhora de todos os dons,

se abrisse entornando contratempos.

 

desde então as ideias são como alaridos e esgrimas

e as frases soam a desconfianças bastardas.

rebuscamos  no campanário das vozes e das prosas de Babel,

a  Palavra que um dia dará forma à doutrina do entendimento humano.

catamos na multidão dos vocabulários,

nos mistérios dos catecismos,

no frágil talento dos nossos rudes critérios:

o Sopro Divino, Grande Alento, brasas de Luz a partir do nada;

a Harmonia das Esferas, caroço das perfeições possíveis;

os pedaços, na miragem de chegar ao Todo colando as partes.

 

dói olhar para um homem, vê-lo só a ele, e nem sequer todo...

dói procurar nas Borras da Fundição, olhos que vejam como os

      [nossos...

dói encostar o ouvido ao búzio e não adivinhar o sabor do sal...

dói tanto...

 

mas no dia em que o céu se partir,

as tábuas da mecânica do mundo hão de peregrinar.

nesse dia estarei convosco, para guardá-las.

 

Basta-me!


(c)Todos os Direitos Reservados LFMarques às 12:39
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5 comentários:
De Anónimo a 31 de Dezembro de 2004 às 20:32
São palavras assim que me deixam a pensar que "raio ando eu a fazer...armada em poetisa?"...fantástico. Parabéns.
Um beijo**Virgínia Pedras
(http://semipoesia.blogs.sapo.pt)
(mailto:gina_pedras@yahoo.com)


De Anónimo a 29 de Dezembro de 2004 às 16:12
um extraordinário poema.
Admiro imenso este poema.
um abraço.vitor
</a>
(mailto:admin@literaturapt.org)


De Anónimo a 28 de Dezembro de 2004 às 20:29
Que coisa linda de se ler. Um poeta mesmo, só pode: quem escreve assim, não é um mero entretainer, que usa a caneta para escrever rimas de cão com amorzão, nem amor com calor...Voltarei. Fique bem.Plantacarnivora
(http://Aseivadosolidadgo.blogs.sapo.pt)
(mailto:seivadosolidago@sapo.pt)


De Anónimo a 27 de Dezembro de 2004 às 21:53
Soberbo. E deixa-me acrescentar:Podeis, sim.Viceversa1000
(http://Diario365.blogs.sapo.pt)
(mailto:Viceversa1000@sapo.pt)


De Anónimo a 26 de Dezembro de 2004 às 22:24
Divinal! ;)João
(http://Poetasamigos.blogs.sapo.pt)
(mailto:Poetasamigos@sapo.pt)


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